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A disputa pelo Governo da Bahia em 2026 chega ao segundo semestre com um cenário que era improvável há poucos meses: o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) aparece tecnicamente empatado com o governador Jerônimo Rodrigues (PT) numa simulação de primeiro turno, e à frente numa simulação de segundo turno. É o que mostra a mais recente pesquisa Genial/Quaest, realizada entre 23 e 27 de julho, com 1.200 entrevistas domiciliares face a face em todo o estado, margem de erro de 3 pontos percentuais e 95% de confiança.
Em 2022, Jerônimo havia vencido ACM Neto por uma margem folgada de quase 5,6 pontos percentuais no segundo turno. Três anos e meio depois, essa vantagem não apenas desapareceu, como se inverteu.
O que a pesquisa mostra
Quando o entrevistado precisa lembrar o nome do candidato sem qualquer ajuda (a chamada intenção espontânea), o quadro ainda é bastante indefinido: Jerônimo aparece com 38% e ACM Neto com apenas 7% — a maioria do eleitorado (53%) ainda não sabe em quem vai votar.
A diferença de 1 ponto está dentro da margem de erro da pesquisa — ou seja, tecnicamente, os dois estão empatados. É no cenário de segundo turno, porém, que aparece o dado mais comentado do levantamento:
Por que Jerônimo aprova bem, mas não converte em voto
Um dos pontos mais chamativos da pesquisa é o chamado "gap de conversão" do governador: apesar de 57% dos baianos aprovarem sua gestão, isso não se traduz integralmente em intenção de voto, que fica em 38-39%. Some-se a isso uma rejeição que segue estrutural — 40% do eleitorado diz "conhecer e não votar" nele.
Já ACM Neto apresenta o movimento inverso: sai de apenas 7% na espontânea para 39% na estimulada, um salto de 32 pontos que é típico de pré-candidato ainda sem campanha formal, mas plenamente reconhecido quando apresentado como opção. Seu conhecimento subiu de 52% para 57% entre abril e julho — e, o que é mais importante para sua viabilidade, sua rejeição praticamente não se moveu no mesmo período (32% para 33%). Normalmente, quando um candidato ganha exposição, a rejeição sobe junto; neste caso, isso não aconteceu, o que indica espaço para crescer ainda mais.
O eleitor indeciso é quem vai decidir a eleição
A pesquisa também perguntou aos baianos como eles se autodefinem no espectro político. O resultado mostra que o segundo maior grupo do estado não tem partido:
Os "Independentes" — 30% do eleitorado, mais que Direita e Bolsonaristas somados — são o grupo que decide a corrida. E o dado mais revelador da pesquisa está justamente aqui: 70% desse grupo diz que gostaria que o próximo governador não fosse identificado nem como aliado de Lula, nem como aliado de Bolsonaro. É esse espaço de "fora da polarização" que ACM Neto vem conseguindo ocupar com mais eficácia até aqui.
Entre os próprios Independentes, quando perguntados se Jerônimo merece ser reeleito, o "não" (49-54%) já supera o "sim" (39-40%) — um sinal direto de por que o governador perde força no cenário de segundo turno mesmo com aprovação de governo alta.
Vale do São Francisco: o que a urna de 2022 já mostrava
A pesquisa Genial/Quaest não traz um recorte específico para o Vale do São Francisco — a metodologia detalha apenas sexo, faixa etária, escolaridade, renda, religião, cor/raça e posicionamento político. Mas os resultados do TSE para o 2º turno de 2022 nos municípios da região mostram um padrão que ajuda a entender o que pode estar em jogo agora.
O retrato é o de duas realidades dentro do mesmo território: em Juazeiro — de longe o maior colégio eleitoral da região —, ACM Neto já vencia com folga em 2022, puxado por uma economia mais diversificada, com comércio, serviços e uma classe média ligada à fruticultura de exportação. Já no entorno rural (Casa Nova, Sobradinho, Curaçá e Sento Sé), a vantagem de Jerônimo é esmagadora, entre 33 e 42 pontos percentuais, refletindo uma base eleitoral historicamente mais ligada a programas sociais e ao PT.
Um dado chama atenção na comparação entre o primeiro e o segundo turno de 2022 nessas cidades: em Juazeiro, Casa Nova e Sobradinho, ACM Neto não apenas absorveu o voto que havia ficado disperso entre outros candidatos no primeiro turno, como superou esse total — sinal de que ele também mobilizou eleitores que não haviam votado nele, ou nem sequer votado, na primeira etapa.
Este é um padrão que a pesquisa de julho sugere estar se repetindo em escala estadual: o mesmo movimento de concentração de voto disperso em torno de ACM Neto no segundo turno, que já havia acontecido no Vale em 2022, aparece de novo na simulação estadual — indício de que o desafio do governador não é apenas manter sua base, mas evitar que o eleitor indeciso repita o movimento que já esvaziou sua vantagem na região há quatro anos.
E a economia do Vale?
Um ponto de atenção para a região aparece na avaliação das áreas de atuação do governo estadual: "Emprego e renda" é a única área da pesquisa com empate técnico perfeito entre avaliação positiva (34%), regular (32%) e negativa (34%). Trata-se de um indicador especialmente sensível para uma economia como a do Vale do São Francisco, que depende de crédito agrícola, câmbio de exportação (manga, uva, vinho) e infraestrutura logística de escoamento — e que hoje aparece como o ponto mais dividido, e mais vulnerável a contestação, de toda a gestão estadual.
Senado ainda indefinido
Na corrida ao Senado, quase metade do eleitorado (46%, somando indecisos e brancos/nulos) ainda não tem posição formada. Rui Costa (PT) lidera com 22%, seguido por Jaques Wagner (PT) com 16%, Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL), empatados com 6% cada.
E o cenário nacional?
Na Bahia, Lula segue com aprovação entre 60% e 69% ao longo de toda a série histórica da pesquisa — bem acima da média nacional de seu governo — e venceria com folga qualquer adversário testado em simulação de segundo turno para a Presidência, com percentuais entre 56% e 57% em todos os quatro cenários. Nenhum nome de oposição testado (Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema ou Renan Santos) ultrapassa isoladamente os 25%.
Uma eleição tecnicamente aberta, mas com tendência mais clara no 2º turno
A leitura mais honesta que os números permitem fazer é a seguinte: a Bahia tem hoje uma eleição para governador tecnicamente empatada no primeiro turno, mas com viés de abertura para ACM Neto num confronto direto — um padrão que já havia se manifestado na urna de 2022 em pelo menos três dos cinco municípios do Vale do São Francisco analisados. O fiel da balança segue sendo o eleitor independente, que hoje rejeita tanto o rótulo de aliado de Lula quanto o de aliado de Bolsonaro, e que se mostra mais inclinado à mudança do que à continuidade — mesmo com o governo estadual mantendo aprovação superior a 50%.
Para o Vale do São Francisco, a leitura mais defensável não é a de uma "virada regional", mas a de duas dinâmicas distintas dentro do mesmo território: um polo urbano que já pendia para ACM Neto em 2022 e tende a acompanhar o desgaste estadual do governo, e um entorno rural que, mesmo sentindo esse desgaste, parte de margens grandes demais para reverter no curto prazo.
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Pesquisa Genial/Quaest, Estadual Bahia, julho de 2026. Coleta entre 23 e 27 de julho, 1.200 entrevistas domiciliares face a face, margem de erro de 3 pontos percentuais, 95% de confiança. Resultados eleitorais de 2022: Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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