A Prefeitura de Juazeiro deu início ao processo de revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), o principal instrumento de planejamento que define as regras de uso e ocupação do solo e orienta o crescimento da cidade. A atualização é resultado de uma parceria entre o município e o Governo da Bahia, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur), e marca a primeira revisão do documento em cerca de 23 anos.

O tempo decorrido desde a última atualização coloca Juazeiro em uma situação peculiar diante da legislação federal. O Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001) determina que o Plano Diretor deve ser revisto pelo menos a cada dez anos, prazo que o município já superou em mais de uma década. A defasagem em relação à norma nacional é justamente um dos fatores que reforça a urgência do processo agora colocado em marcha.

O que é o Plano Diretor e por que ele é obrigatório

O Plano Diretor é a lei municipal que estabelece onde a cidade pode crescer e como. É esse documento que indica, por exemplo, quais áreas podem receber empreendimentos residenciais, comerciais ou industriais, além de reservar espaços para equipamentos públicos, preservação ambiental e futura expansão urbana. Na prática, funciona como um guia de longo prazo para evitar que o crescimento das cidades aconteça de forma desordenada.

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Segundo o Estatuto da Cidade, o instrumento é obrigatório para municípios com mais de vinte mil habitantes, além de cidades integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas — critério que Juazeiro atende com folga. O Censo 2022 do IBGE registrou 235.816 habitantes no município, um crescimento de 18,95% em relação ao Censo de 2010 — percentual superior à média estadual e nacional no mesmo período. Estimativas mais recentes do próprio IBGE, divulgadas em agosto de 2025, apontam que a população já teria ultrapassado a marca de 256 mil habitantes, evidenciando a velocidade da expansão urbana nos últimos anos. 

Além do critério populacional, a lei federal também prevê a obrigatoriedade da revisão para lidar com a chamada função social da propriedade, garantindo que áreas urbanas ociosas ou subutilizadas possam ser destinadas a usos que atendam ao interesse coletivo.

Pontos-chave sobre o instrumento:

  • Define zonas residenciais, comerciais, industriais e de preservação ambiental
  • Orienta investimentos em infraestrutura, mobilidade e saneamento
  • É pré-requisito legal para acesso a determinadas linhas de financiamento urbano
  • Precisa ser revisto a cada dez anos, segundo o Estatuto da Cidade

Por que a revisão se torna necessária agora

Passadas mais de duas décadas desde a última atualização, o cenário urbano de Juazeiro mudou de forma significativa. O crescimento populacional acima da média baiana e nacional, a expansão de novos bairros e o aumento das demandas por habitação, infraestrutura, mobilidade e saneamento tornaram a legislação vigente defasada em relação à realidade atual do município.

Esse descompasso entre a lei e a cidade real é um problema comum em municípios brasileiros que atrasam suas revisões. Um Plano Diretor desatualizado tende a gerar insegurança jurídica para novos empreendimentos, dificultar o planejamento de obras públicas e deixar a administração municipal sem instrumentos adequados para lidar com fenômenos que sequer existiam — ou eram pouco relevantes — na época da última revisão, como a verticalização de determinadas áreas, a pressão por moradia em regiões periféricas e a necessidade de qualificar corredores de mobilidade.

Municípios da região do Vale do São Francisco, como Juazeiro, também enfrentam desafios específicos ligados à irrigação, à agricultura familiar e ao turismo regional, elementos que um plano diretor moderno pode contemplar de forma mais assertiva do que uma legislação concebida há mais de duas décadas.

Como vai funcionar o processo de revisão

De acordo com informações da Prefeitura, o processo está, neste momento, em fase de licitação para a contratação da empresa responsável tecnicamente pela revisão do Plano Diretor. Depois dessa etapa, terão início os estudos técnicos propriamente ditos, seguidos pelas discussões com a sociedade civil.

O secretário de Ordem Pública e Habitação de Juazeiro, Giovanne Silva, detalhou o estágio atual dos trabalhos:

"Atualmente, o processo está em fase de licitação para contratação da empresa que será responsável pela revisão do Plano Diretor. Após essa etapa, iniciaremos os estudos técnicos e as discussões com a sociedade para construir um planejamento moderno, que atenda às necessidades atuais e prepare Juazeiro para o futuro."

Embora o texto de referência não detalhe prazos, cronograma completo ou o valor previsto para a contratação, a sequência descrita pelo secretário segue o rito típico de revisões de planos diretores no Brasil, dividido em etapas de diagnóstico municipal, definição de diretrizes, elaboração de minutas e, por fim, tramitação legislativa na Câmara de Vereadores.

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A participação popular como exigência legal e política

Um dos pilares anunciados para a revisão é a participação da sociedade. Segundo a Prefeitura, o processo contará com audiências públicas, consultas populares e espaços de diálogo para que moradores, entidades representativas, instituições e diferentes segmentos da cidade possam apresentar propostas e contribuir para a construção do novo documento.

Essa não é apenas uma escolha de gestão: trata-se de uma exigência prevista no próprio Estatuto da Cidade. O parágrafo 4º do artigo 40 da lei reconhece a importância da participação da população na elaboração do plano diretor, tanto na formulação quanto na fiscalização de sua implementação posterior. Na prática, isso significa que revisões conduzidas sem processo participativo estruturado podem ser questionadas judicialmente — um ponto que reforça a importância de Juazeiro seguir o rito com atenção às etapas de consulta pública. 

O secretário Giovanne Silva destacou o peso dessa construção coletiva:

"A construção coletiva é fundamental para que o documento reflita as necessidades atuais da população e prepare Juazeiro para os desafios dos próximos anos. Além de organizar o crescimento urbano, um Plano Diretor atualizado fortalece a segurança jurídica para novos investimentos, contribui para a melhoria dos serviços públicos, estimula o desenvolvimento econômico e amplia as condições para que o município cresça de forma planejada, equilibrada e sustentável."

O que se espera das etapas participativas:

  • Audiências públicas abertas à população
  • Consultas populares sobre diretrizes específicas
  • Espaços de diálogo com entidades e representações setoriais
  • Publicidade e acesso amplo aos documentos produzidos durante o processo

O que muda para a cidade com um Plano Diretor atualizado

Do ponto de vista prático, um Plano Diretor moderno tende a impactar diretamente áreas sensíveis para quem vive e investe em Juazeiro. Entre os efeitos esperados de uma revisão bem conduzida estão:

  • Segurança jurídica para investimentos: regras mais claras sobre uso do solo reduzem disputas e tornam o ambiente mais previsível para quem pretende construir ou empreender na cidade;
  • Organização da expansão urbana: definição de áreas prioritárias para novos loteamentos e limites para ocupação em regiões ambientalmente sensíveis;
  • Planejamento de infraestrutura: mobilidade, saneamento e equipamentos públicos passam a ser projetados com base em projeções atualizadas de crescimento, e não em dados de mais de duas décadas atrás;
  • Estímulo ao desenvolvimento econômico: cidades com planejamento urbano atualizado tendem a ter mais facilidade para atrair investimentos privados e acessar recursos federais e estaduais vinculados a políticas urbanas.

Para Juazeiro, que forma com a vizinha Petrolina o maior aglomerado urbano do semiárido brasileiro, a atualização do instrumento também tem relevância regional. Decisões sobre uso do solo, mobilidade e expansão urbana no município tendem a repercutir na dinâmica de toda a região polarizada pelas duas cidades, que concentra parte significativa da economia baseada em agricultura irrigada do Vale do São Francisco.

Próximos passos

A expectativa da Prefeitura é que, concluídas as etapas de licitação, estudos técnicos, consultas públicas e tramitação legislativa, Juazeiro passe a contar com um instrumento de planejamento urbano atualizado, capaz de orientar o desenvolvimento do município nas próximas décadas. Não foram divulgados, até o momento, prazos específicos para a conclusão de cada fase do processo, nem o nome da empresa a ser contratada — informações que devem ser detalhadas pela Prefeitura ao longo do andamento da licitação.

A Redação do Portal O Vale Quer Saber vai acompanhar os desdobramentos do processo, incluindo o resultado da licitação, o cronograma de audiências públicas e as principais propostas que surgirem ao longo da revisão.

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FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber