Rafael Câmara está oficialmente na Fórmula 1. A Haas anunciou nesta quinta-feira (15) a contratação do piloto pernambucano de 21 anos para a temporada de 2027. O recifense assinou um contrato de vários anos com a equipe norte-americana — pelo menos até 2028 — e vai ocupar a vaga de Esteban Ocon, que deixa o time ao fim deste campeonato.

Com o anúncio, a Fórmula 1 fica mais brasileira. Rafael Câmara vai se juntar a Gabriel Bortoleto, da Audi, e o Brasil volta a ter dois representantes ao mesmo tempo no grid, algo que não acontece desde 2016, com Felipe Massa e Felipe Nasr.

A contratação também tem peso histórico para a região. Câmara será o primeiro piloto nascido no Nordeste a disputar uma temporada da principal categoria do automobilismo mundial e o 34º brasileiro a largar em uma corrida de Fórmula 1.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

Rafael Câmara na Haas: o que diz o anúncio

A confirmação encerra semanas de expectativa. No dia 30 de setembro, a Haas comunicou que Esteban Ocon não seguiria na equipe em 2027. O francês, que chegou ao time em 2025, se declarou agente livre para a próxima temporada. A partir daí, o nome do brasileiro passou a ser apontado como o favorito para a vaga.

Os principais pontos do acordo são:

  • Equipe: Haas, escuderia norte-americana que utiliza motores Ferrari
  • Temporada de estreia: 2027
  • Contrato: multianual, com vínculo de pelo menos até 2028
  • Vaga: substitui Esteban Ocon
  • Companheiro de equipe previsto: o britânico Oliver Bearman

Em entrevista à TV Globo, o piloto resumiu o momento: "Estou muito feliz por ter alcançado o sonho".

O chefe da Haas, o japonês Ayao Komatsu, destacou que o desempenho do brasileiro foi além do cronômetro. "Ele nos mostrou mais do que apenas velocidade pura", afirmou o dirigente.

Saída de Ocon e o mercado de pilotos para 2027

A vaga aberta por Esteban Ocon era uma das mais observadas do mercado. O francês, de 30 anos, tem longa trajetória na categoria: passou por Manor, Force India e Alpine, equipe pela qual venceu o GP da Hungria de 2021, antes de assinar com a Haas para 2025 e 2026. Experiente, ele seria uma opção natural para a sequência do projeto, mas a equipe preferiu apostar em um estreante.

Com a definição do nome de Câmara, o grid de 2027 fica cada vez mais fechado. Segundo levantamentos da imprensa internacional, restam poucas vagas em aberto, concentradas principalmente na Racing Bulls, que hoje conta com Liam Lawson e com o estreante Arvid Lindblad.

A escolha pelo brasileiro mostra que o desempenho nas categorias de base continua sendo um fator decisivo na hora de montar o grid. Câmara chega à Fórmula 1 com títulos recentes, liderança na F2 e resultados em testes com o próprio carro da equipe, uma combinação que reduziu o risco da aposta para a Haas.

Rafael Camara
Rafael Camara

O teste em Portimão que ajudou a convencer a Haas

Um dos momentos decisivos para a contratação aconteceu em agosto, no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, Portugal. Dentro do programa de testes com carros de temporadas anteriores, Rafael Câmara pilotou o VF-25, modelo usado pela Haas em 2025.

Na sessão, o pernambucano dividiu a pista com o italiano Leonardo Fornaroli e com o japonês Ryo Hirakawa, piloto ligado à Toyota, parceira técnica da Haas. Segundo os dados divulgados, Câmara registrou o melhor tempo da sessão e superou também a marca de referência obtida por Bearman com o mesmo equipamento.

Para uma equipe que precisava escolher entre nomes experientes disponíveis no mercado e um estreante, o resultado pesou. Komatsu relatou que o trabalho feito pelo jovem nos testes em Portugal mostrou a capacidade dele de criar o ambiente necessário para render no seu melhor nível.

Quem é Rafael Câmara

Rafael Chaves Câmara nasceu em Recife, no dia 5 de maio de 2005. O automobilismo entrou cedo na vida dele, por influência de dentro de casa. O irmão mais velho já competia, e a avó, Niege Rossiter, é considerada uma pioneira do automobilismo em Pernambuco.

Aos seis anos, Rafael começou no kart. A evolução foi rápida e, aos nove, ele se mudou para São Paulo para disputar competições nacionais, centro onde estão as principais estruturas do kartismo brasileiro.

O passo seguinte foi a Europa. No continente, o pernambucano passou a disputar campeonatos internacionais de kart e logo chamou atenção. Foi vice-campeão europeu, resultado que abriu as portas para um dos programas de formação mais disputados do automobilismo.

Academia da Ferrari aos 16 anos

Em 2021, com apenas 16 anos, Rafael Câmara foi selecionado para a Ferrari Driver Academy, a academia de pilotos da equipe italiana. O programa acompanha jovens talentos com treinamento físico, trabalho em simulador, acompanhamento técnico e suporte na escolha das categorias de base.

Fazer parte da academia não garante uma vaga na Fórmula 1, mas coloca o piloto no radar das equipes que têm relação com a Ferrari. A Haas é uma delas: utiliza motores e componentes fornecidos pela fabricante italiana, e essa proximidade técnica facilita a chegada de pilotos formados pelo programa.

Título na Fórmula Regional Europeia

Antes de chegar à Fórmula 3, Câmara passou pelos monopostos de entrada na Europa. Em 2024, conquistou o título da Fórmula Regional Europeia (FRECA) pela equipe Prema Racing, com nove vitórias e 12 pódios na temporada.

A arrancada na Fórmula 3 e na Fórmula 2

Foi a partir de 2025 que a carreira de Rafael Câmara ganhou outro ritmo. Na temporada de estreia na Fórmula 3, correndo pela equipe Trident, o brasileiro dominou o campeonato.

Os números daquela campanha mostram a dimensão do resultado:

  • 4 vitórias
  • 5 pole positions
  • Título garantido com uma rodada de antecedência
  • 166 pontos, contra 124 do vice-campeão

A diferença de 42 pontos para o segundo colocado deu ao título um peso extra. Além do troféu, a conquista garantiu os pontos necessários para a superlicença da FIA, documento obrigatório para que um piloto possa disputar corridas de Fórmula 1. Na prática, desde o fim de 2025 o pernambucano já estava habilitado a assumir um carro na categoria.

A superlicença funciona por um sistema de pontuação: o piloto precisa somar ao menos 40 pontos em um período de três temporadas, de acordo com as posições conquistadas em campeonatos reconhecidos pela FIA. Títulos em categorias como Fórmula 3 e Fórmula Regional rendem pontuações altas, o que explica por que a sequência de conquistas de Câmara antecipou sua habilitação.

>>> Receba mais notícias entre no grupo do Whatsapp

Líder da Fórmula 2 em 2026

Em 2026, Rafael Câmara subiu para a Fórmula 2, último degrau antes da F1, pela equipe Invicta Racing. Mesmo como estreante, entrou direto na briga pelo título.

Ao longo da temporada, venceu corridas principais na Espanha, na Bélgica e no Azerbaijão, assumindo a liderança do campeonato. No momento do anúncio da Haas, os números do brasileiro eram estes:

  • 207 pontos e liderança do campeonato
  • 3 vitórias em corridas principais
  • 6 pódios
  • 5 pole positions
  • Vantagem de 7 pontos sobre o búlgaro Nikola Tsolov

Faltam duas etapas para o encerramento da Fórmula 2. Ou seja, o contrato com a Haas chegou antes mesmo do fim da temporada, e Câmara ainda tem a chance de chegar à Fórmula 1 com o título da categoria de acesso. O próprio piloto já deixou claro que o objetivo agora é fechar o ano como campeão.

Se confirmar a conquista, ele repetirá o caminho de Gabriel Bortoleto, campeão da Fórmula 3 em 2023 e da Fórmula 2 em 2024 antes de estrear na F1.

Uma das duplas mais jovens do grid

Na Haas, Rafael Câmara deve formar dupla com Oliver Bearman, britânico que também foi formado pela Academia de Pilotos da Ferrari. Bearman estreou na Fórmula 1 em 2024, como substituto, e se tornou titular da Haas em 2025.

A escolha da equipe por dois pilotos jovens foi tão ousada que os dois nasceram com apenas três dias de diferença:

  • Rafael Câmara: 5 de maio de 2005
  • Oliver Bearman: 8 de maio de 2005

Com isso, a Haas deve ter em 2027 uma das duplas mais jovens do grid. A aposta segue uma tendência recente da Fórmula 1, em que equipes têm dado espaço a pilotos que chegam das categorias de base com títulos recentes e longos programas de preparação em simulador e testes.

Para Câmara, ter um companheiro com idade e trajetória parecidas também significa um parâmetro direto de comparação. Os dois vão pilotar o mesmo carro, e o desempenho interno costuma ser o principal termômetro usado pelas equipes para avaliar seus pilotos.

A Haas na Fórmula 1

Fundada pelo empresário norte-americano Gene Haas, a equipe estreou na Fórmula 1 em 2016. É a única escuderia com sede principal nos Estados Unidos no grid atual e mantém, desde o início, uma parceria técnica com a Ferrari.

A Haas tem histórico de dar oportunidade a pilotos de academias. Bearman é o exemplo mais recente. A equipe também já teve um brasileiro ao volante: Pietro Fittipaldi, neto de Emerson Fittipaldi, disputou duas corridas pela Haas em 2020, como substituto de Romain Grosjean, nos GPs de Sakhir e de Abu Dhabi.

Com a contratação de Câmara, a escuderia volta a ter um brasileiro, agora como titular e com contrato de mais de uma temporada.

Rafael Camara com Gabriel Bortoleto
Rafael Camara com Gabriel Bortoleto

Alô, Gabriel: o Brasil volta a ter dois pilotos

A chegada de Rafael Câmara quebra um jejum do automobilismo brasileiro. A última vez que o país teve dois pilotos titulares ao mesmo tempo na Fórmula 1 foi em 2016, com Felipe Massa, então na Williams, e Felipe Nasr, na Sauber.

Depois disso, o Brasil viveu um período difícil na categoria. Massa correu sozinho em 2017, ano de sua despedida, e o país ficou sem nenhum titular no grid entre 2018 e 2024. A única presença brasileira nesse intervalo foi a de Pietro Fittipaldi, nas duas provas como substituto em 2020.

A retomada começou em 2025, com a estreia de Gabriel Bortoleto pela Sauber, equipe que em 2026 passou a correr como Audi. Agora, com a confirmação de Câmara, o Brasil terá em 2027 dois pilotos na mesma temporada pela primeira vez em mais de uma década.

O marco tem peso para um país que soma oito títulos mundiais de pilotos, com Emerson Fittipaldi (1972 e 1974), Nelson Piquet (1981, 1983 e 1987) e Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991).

Orgulho para Pernambuco e para o Nordeste

A contratação também tem um significado especial para o Nordeste. Rafael Câmara será o primeiro piloto nordestino a chegar à Fórmula 1, em uma modalidade historicamente concentrada no eixo Sul-Sudeste, onde estão os principais kartódromos, equipes e patrocinadores do país.

O feito ganha ainda mais valor quando se considera o caminho percorrido. Ainda criança, o pernambucano precisou deixar o estado para competir em alto nível, primeiro em São Paulo e depois na Europa. A trajetória mostra o tamanho do investimento pessoal e familiar necessário para que um talento fora dos grandes centros chegue ao topo do esporte.

Para o público pernambucano, inclusive no Vale do São Francisco, a estreia de Câmara em 2027 representa a chance de acompanhar um conterrâneo disputando posições com os principais pilotos do mundo.

Os próximos passos de Rafael Câmara

Até a estreia na Fórmula 1, o calendário de Rafael Câmara segue cheio. A prioridade imediata é a reta final da Fórmula 2, com duas etapas restantes e a disputa direta com Nikola Tsolov pelo título.

Depois disso, o piloto deve intensificar a preparação com a Haas, com trabalho em simulador, integração com a equipe técnica e atividades previstas para o período entre temporadas, até a pré-temporada de 2027.

A partir de março do próximo ano, a torcida brasileira terá dois motivos para acompanhar cada largada: Gabriel Bortoleto, que segue na Audi, e o novato pernambucano, que chega à categoria com um currículo de títulos nas categorias de base e a responsabilidade de abrir um novo capítulo para o Nordeste no automobilismo mundial.

Portal O Vale Quer Saber - A informação que conecta o Vale

FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber