A Prefeitura de Sobradinho, por meio da Secretaria de Educação, inaugurou nesta segunda-feira (17) o Memorial de Arqueologia de Sobradinho. O novo espaço, instalado no Polo UAB, no Bairro São Francisco, reúne uma ampla exposição de artefatos e livros, além de concentrar toda a pesquisa produzida ao longo de décadas pelo arqueólogo Dr. Celito Kestering sobre a história das comunidades originárias que ocuparam o território hoje conhecido como Sobradinho.

O memorial foi instituído pelo Decreto Municipal 056/2026 e, segundo a Secretaria de Educação, tem como objetivo promover a pesquisa, divulgar o patrimônio natural e cultural do município — tanto pré-colonial quanto pós-colonial — e preservar a memória das comunidades locais. A proposta da gestão municipal é que o espaço desperte e fomente o sentimento de pertencimento da população, elemento que a Secretaria descreve como base para subsidiar o desenvolvimento autossustentável de Sobradinho.

O que reúne o Memorial de Arqueologia de Sobradinho

De acordo com a Secretaria de Educação, o memorial concentra em um único espaço o resultado de décadas de trabalho de campo do arqueólogo Celito Kestering, somando artefatos, publicações e material de pesquisa sobre os grupos que habitaram a região antes da colonização e sobre as transformações vividas pelas comunidades locais no período pós-colonial. A ideia é que o acervo funcione como referência tanto para moradores quanto para estudantes, pesquisadores e turistas interessados na origem histórica do município.

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O Polo UAB, no Bairro São Francisco, foi escolhido como sede do memorial por já funcionar como espaço de formação e integração entre educação e comunidade em Sobradinho, o que reforça o caráter pedagógico que a Secretaria de Educação pretende dar à iniciativa.

Além do acervo físico, a Secretaria de Educação apresenta o memorial como um instrumento de gestão pedagógica: o espaço deve funcionar em conjunto com o calendário escolar do município, servindo de apoio a visitas de turmas da rede municipal de ensino e a atividades ligadas à disciplina que já trata da história dos povos originários dentro da grade curricular de Sobradinho. Na prática, isso significa que o memorial não se limita a expor peças arqueológicas: ele se soma a um esforço mais amplo da gestão municipal de transformar pesquisa acadêmica em conteúdo pedagógico acessível para estudantes da educação básica.

Por que o memorial foi criado

A criação do Memorial de Arqueologia de Sobradinho, via Decreto Municipal 056/2026, responde a um objetivo declarado pela gestão municipal de aproximar a população da história real do território antes de ele se tornar o município atual. A Secretaria de Educação resume essa intenção como um esforço de mostrar "a verdadeira origem" da cidade, incluindo a memória de povos citados pela pasta como Moquim, Tamoquim e Tatauí.

Essa preocupação em preservar e divulgar a memória dos povos originários também está ligada à própria formação de Sobradinho como município. A região foi profundamente transformada nos anos 1970, com a construção da Barragem de Sobradinho e a formação do Lago de Sobradinho, um dos maiores reservatórios artificiais do mundo, com cerca de 4.214 quilômetros quadrados de área, 400 quilômetros de extensão e largura máxima de 25 quilômetros. A inundação de áreas urbanas, ocorrida a partir de 1974, levou à transferência de cerca de 12 mil famílias — algo em torno de 70 mil pessoas — dos municípios de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso, Sento Sé e do próprio Sobradinho para novos assentamentos, um dos maiores deslocamentos populacionais provocados por uma obra de infraestrutura no Brasil.

Esse histórico de deslocamento e de perda de referências físicas do passado ajuda a explicar por que iniciativas como o Memorial de Arqueologia de Sobradinho são apresentadas pela gestão municipal como estratégicas: parte considerável da paisagem, e possivelmente de sítios arqueológicos, ficou submersa com a formação do lago, o que reforça a importância de documentar, registrar e manter viva a memória dos povos que ocuparam a região antes dessas transformações.

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A pesquisa do arqueólogo Celito Kestering sobre a região

Celito Kestering é pesquisador com produção acadêmica publicada sobre a arqueologia do Submédio São Francisco, com estudos voltados principalmente à identificação e à classificação de grafismos rupestres — pinturas e gravuras deixadas por grupos pré-históricos em paredões e abrigos rochosos da região. Em artigos científicos, o pesquisador propõe a existência de uma ocupação humana contínua no território, que teria se estendido do final do Pleistoceno até períodos mais recentes do Holoceno, organizada em diferentes estilos de grafismo conforme a época e a localização das vertentes ocupadas.

Entre os sítios documentados por Kestering em suas pesquisas estão a Grota do Olho D'Água, o Boqueirão do Riacho São Gonçalo e o Boqueirão do Brejo de Dentro, cada um associado a um estilo distinto de pintura rupestre identificado pelo pesquisador. Reportagens recentes sobre o tema também apontam que o arqueólogo catalogou pinturas rupestres na Serra de São Gonçalo com idade estimada em mais de 9 mil anos, consideradas herança sagrada por povos originários que ainda hoje realizam rituais na região, e que parte desses sítios pode ter ficado submersa com a formação do lago artificial de Sobradinho.

Segundo o próprio pesquisador, essa organização em estilos não é apenas uma classificação estética das pinturas, mas uma tentativa de reconstituir a ocupação humana da região ao longo de milênios, relacionando cada conjunto de grafismos a diferentes momentos climáticos e a diferentes formas de acesso às vertentes onde os grupos se instalavam. Coberturas recentes sobre a arqueologia de Sobradinho também apontam que artefatos e vestígios indígenas continuam sendo encontrados na região à medida que novos empreendimentos, como parques eólicos, avançam sobre áreas ainda pouco mapeadas — cenário que reforça a urgência de iniciativas de registro, catalogação e preservação como as que agora ganham um espaço permanente no município.

É esse conjunto de décadas de pesquisa de campo, catalogação de sítios e produção acadêmica que passa a ter, a partir de agora, um espaço físico permanente de exposição em Sobradinho, tornando acessível à população um trabalho que, até então, estava concentrado principalmente em publicações científicas e acervos pessoais do pesquisador. Ao reunir esse material em um memorial público, a Prefeitura também cria um canal mais direto entre a produção acadêmica de Kestering e o público não especializado, que passa a ter acesso a décadas de pesquisa sem precisar recorrer a artigos técnicos publicados em periódicos científicos.

A fala da Secretária de Educação sobre o novo espaço

A Secretária de Educação, Ducilene Kestering, afirmou que o propósito do memorial é levar até a comunidade a verdadeira origem de Sobradinho, além da memória do povo Moquim, Tamoquim e Tatauí.

"A Secretaria de Educação tem a missão de educar na diversidade para construir a identidade do município. A SME estabelece o desafio de transcender os horizontes do ensino e aprendizagem e mergulha na diversidade cultural que já vem sendo tratada na disciplina: Patrimônio Tatauí, inserida na Matriz Curricular do Sistema Municipal de Ensino e no Referencial Curricular. A SME faz uma gestão pedagógica com essa intencionalidade de pertença", explicou a gestora.

A fala da secretária conecta diretamente o novo memorial a uma política educacional já em curso no município: a disciplina Patrimônio Tatauí, presente na Matriz Curricular do Sistema Municipal de Ensino de Sobradinho. Segundo a Secretaria, o memorial passa a funcionar como extensão prática dessa disciplina, oferecendo aos estudantes um espaço físico de contato direto com o acervo e a pesquisa que embasam o conteúdo estudado em sala de aula.

O que disse o prefeito Cleivynho Sampaio

O prefeito Cleivynho Sampaio esteve presente à inauguração, acompanhado do vice-prefeito Jarques Canturil, da primeira-dama Adriana Menezes e dos vereadores Edson Cardoso, Olivar Rodrigues e Geovan Santos. Durante o evento, o gestor destacou a importância de valorizar a história local por meio da criação do novo espaço.

"Com grande alegria participo dessa importante iniciativa da Secretaria de Educação que valoriza os povos originários da região, raízes das nossas reservas ecológicas e arqueológicas. O espaço estará aberto à visitação e poderá ser conhecido não apenas pelos moradores de Sobradinho, mas também pelos estudantes, pesquisadores e turistas de toda a nossa região", destacou o prefeito.

A fala do prefeito reforça duas frentes que a gestão municipal associa ao memorial: de um lado, o compromisso com a valorização dos povos originários e do patrimônio ecológico e arqueológico do município; de outro, o potencial do espaço como ponto de visitação aberto ao público, capaz de atrair não só moradores locais, mas também pesquisadores e turistas de outras cidades do Vale do São Francisco.

Sobradinho no contexto do Vale do São Francisco

Sobradinho está localizado na microrregião de Juazeiro, no norte da Bahia, com população estimada pelo IBGE em cerca de 26,9 mil habitantes em 2024. O município integra a Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento do Polo Petrolina e Juazeiro (RIDE), tendo o maior PIB per capita da região por abrigar a Usina Hidrelétrica de Sobradinho, referência na geração de energia no Vale do São Francisco.

Nesse contexto, iniciativas como o Memorial de Arqueologia de Sobradinho ganham peso adicional: além do papel econômico ligado à energia, a gestão municipal passa a investir também na dimensão histórica e cultural do território, buscando equilibrar o protagonismo econômico da região com o resgate da memória dos povos que a ocuparam muito antes da chegada da barragem e da formação do lago que hoje marca a paisagem local.

O que está em jogo na preservação dessa memória

Iniciativas como o Memorial de Arqueologia de Sobradinho se inserem em um debate mais amplo sobre a preservação do patrimônio arqueológico no Vale do São Francisco. Levantamentos citados por pesquisas recentes sobre a região apontam que artefatos e vestígios indígenas continuam sendo encontrados à medida que novos empreendimentos avançam sobre áreas ainda pouco mapeadas, muitas vezes sem um controle sistemático sobre o destino desses achados. Nesse cenário, a criação de um espaço institucional dedicado a reunir, catalogar e expor esse material — como agora faz Sobradinho — cumpre um papel que vai além da valorização simbólica: funciona também como forma de registro público de um patrimônio que, de outra maneira, corre o risco de se perder ou de permanecer restrito a coleções particulares e publicações acadêmicas de acesso limitado.

Para o município, esse tipo de iniciativa também tem potencial de se converter em atrativo turístico e educacional para toda a região do Vale do São Francisco. Cidades vizinhas, como Juazeiro e Petrolina, têm investido nos últimos anos em equipamentos culturais próprios, e um memorial dedicado especificamente à arqueologia regional tende a posicionar Sobradinho como referência nesse campo específico, complementando a já conhecida importância econômica do município ligada à geração de energia elétrica.

Onde fica e como visitar o Memorial de Arqueologia de Sobradinho

O Memorial de Arqueologia de Sobradinho funciona no Polo UAB, no Bairro São Francisco, em Sobradinho. Segundo a Secretaria de Educação e a fala do prefeito Cleivynho Sampaio durante a inauguração, o espaço está aberto à visitação, podendo ser conhecido por moradores do município, estudantes, pesquisadores e turistas que passam pela região do Vale do São Francisco. Até o momento, a Prefeitura de Sobradinho não divulgou horários fixos de funcionamento nem informações sobre agendamento de visitas guiadas; atualizações sobre esses detalhes tendem a ser divulgadas pelos canais oficiais da Secretaria de Educação e da Prefeitura Municipal.

Perguntas frequentes sobre o Memorial de Arqueologia de Sobradinho

O que é o Memorial de Arqueologia de Sobradinho? É um espaço inaugurado pela Prefeitura de Sobradinho, por meio da Secretaria de Educação, que reúne artefatos, livros e toda a pesquisa do arqueólogo Celito Kestering sobre a história das comunidades originárias da região.

Onde fica o memorial? O memorial está localizado no Polo UAB, no Bairro São Francisco, em Sobradinho.

Quando o memorial foi inaugurado? A inauguração ocorreu nesta segunda-feira (17), com a presença do prefeito Cleivynho Sampaio e de outras autoridades municipais.

Qual decreto instituiu o memorial? O Memorial de Arqueologia de Sobradinho foi instituído pelo Decreto Municipal 056/2026.

Quais povos são citados pela Secretaria de Educação como parte da memória preservada pelo memorial? A Secretária de Educação, Ducilene Kestering, citou a memória dos povos Moquim, Tamoquim e Tatauí como parte da origem que o memorial busca resgatar.

O memorial está aberto ao público? Sim. Segundo o prefeito Cleivynho Sampaio, o espaço está aberto à visitação de moradores, estudantes, pesquisadores e turistas.

Qual a relação do memorial com a disciplina Patrimônio Tatauí? A disciplina Patrimônio Tatauí já integra a Matriz Curricular do Sistema Municipal de Ensino de Sobradinho e o Referencial Curricular, e o memorial passa a funcionar como espaço complementar de vivência prática para esse conteúdo.

Quem é Celito Kestering? É um arqueólogo que há décadas pesquisa a história das comunidades originárias do Vale do São Francisco, com estudos publicados sobre grafismos rupestres e sítios arqueológicos da região de Sobradinho.

FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber