O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, deixou o Brasil. A confirmação foi dada pela Polícia Federal (PF) ao jornal Gazeta do Povo na tarde desta terça-feira (27), dois dias depois da votação e um dia após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibir o parlamentar de sair do país.

Um aliado próximo do senador confirmou à agência Reuters que ele foi para os Estados Unidos. Segundo a coluna Grande Angular, do Metrópoles, e a Jovem Pan, pessoas próximas à família e fontes da Polícia Federal afirmam que Flávio está em um avião rumo ao país, onde vive o irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Relatos preliminares indicam que ele viajaria com a esposa e as duas filhas.

A reviravolta acontece poucas horas depois de a própria PF informar que não havia registro de passagem do senador por nenhum posto oficial de migração. Ao longo da manhã, a campanha negou a viagem e o governo argentino afirmou que Flávio não entrou no país vizinho, por onde a saída teria acontecido segundo a primeira versão divulgada.

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O que mudou nas últimas horas

Até o fim da manhã, a hipótese de saída do país era tratada como relato não confirmado. Três fatos mudaram o cenário no início da tarde:

  • O prazo venceu e os passaportes não foram entregues. A ordem de Moraes dava 24 horas para que Flávio entregasse à PF os passaportes comum e diplomático, além de qualquer documento de outra nacionalidade. Segundo a Jovem Pan, o prazo terminou às 11h desta terça sem que os documentos fossem apresentados.
  • Os advogados não encontraram o senador. De acordo com a Gazeta do Povo, a defesa confirmou que não conseguiu localizar Flávio em Brasília para cumprir a determinação.
  • A PF confirmou a saída do país. A corporação confirmou ao jornal Gazeta do Povo que o senador deixou o Brasil. A própria Gazeta mantém a reportagem marcada como “apuração em andamento”.

Com o fim do prazo, a PF cancelou os passaportes comum e diplomático de Flávio e vai comunicar o Itamaraty, segundo o Times Brasil.


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A linha do tempo do caso

Sexta-feira (23): Em entrevista a um podcast nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro afirma que, se o irmão perdesse a eleição, seria a favor de que ele deixasse o país: “Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de ele sair do país. Sim, com certeza”.

Domingo (25): Lula é reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, uma diferença de cerca de 4,43 milhões de votos. Na mesma noite, Moraes determina o cancelamento dos passaportes do senador e a proibição de saída do Brasil.

Segunda-feira (26): A decisão vem a público. Flávio diz que foi abordado por agentes da PF ao sair da casa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Em vídeo, afirma: “Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar”. O gabinete do senador divulga que ele “nunca pensou em deixar o Brasil”.

Segunda à noite (26): Um jato Gulfstream registrado em nome da empresa argentina Baires Fly S.A. voa de Buenos Aires para Puerto Iguazú, cidade argentina vizinha a Foz do Iguaçu (PR), segundo dados de rastreamento citados pela Folha de S.Paulo e pelo UOL.

Madrugada de terça (27): O site argentino Infobae publica que Flávio teria cruzado a fronteira com a carteira de identidade e embarcaria nesse jato rumo a Miami, por volta das 2h.

Terça, 8h: Flávio envia a última mensagem conhecida, para o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha. Diz que está “esfriando a cabeça”, sem informar onde está.

Terça, manhã: A PF informa que não há registro de passagem por posto regular de migração e aciona a Argentina. O governo Milei nega a entrada do senador. Marinho diz que ele “não saiu”. Aliados e advogados não conseguem contato.

Terça, 11h: O prazo para a entrega dos passaportes termina sem que os documentos sejam entregues.

Terça, tarde: A PF confirma à Gazeta do Povo que Flávio deixou o Brasil. Metrópoles e Jovem Pan informam que ele está em voo para os EUA, e um aliado confirma a viagem à Reuters.

O que ainda não está claro: a rota

Apesar da confirmação da saída, o caminho usado por Flávio continua indefinido. E as versões não se encaixam por completo.

A primeira hipótese, publicada pelo Infobae, apontava a travessia por Foz do Iguaçu e o embarque em Puerto Iguazú. Do lado brasileiro, segundo a Gazeta do Povo, a fiscalização na fronteira de Foz é feita por amostragem, e não de forma total, o que tornaria possível uma passagem sem registro. Do lado argentino, porém, o controle aduaneiro é total.

E a Argentina insiste que ele não passou por lá. O porta-voz da Presidência, Fabián Fernández, afirmou à Bloomberg que o senador não entrou no território argentino e que nenhuma aeronave com as características divulgadas decolou para os Estados Unidos. A Direção Nacional de Migrações disse não haver registro de entrada nem plano de voo envolvendo a família Bolsonaro. Segundo o Times Brasil, o jato citado pelo Infobae continuaria estacionado em Puerto Iguazú. O governo argentino também negou que Flávio tenha pedido asilo.

A própria Jovem Pan ressalta que a confirmação obtida por ela não comprova que a aeronave usada seja a citada pela imprensa argentina. Até agora, nenhum veículo informou de onde o avião decolou, que modelo é, o número do voo ou o aeroporto de destino.

Os Estados Unidos e a família Bolsonaro

O destino apontado pelas fontes não é casual. Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde março de 2025, situação que ele mesmo chama de “autoexílio”, e tem green card. Ele foi condenado pelo STF por coação e perdeu o mandato de deputado federal.

Segundo o UOL, uma pessoa ligada ao governo Trump e à família Bolsonaro disse ter conhecimento da saída, mas não confirmou a chegada nem se a rota passou pela Argentina. O Departamento de Estado norte-americano não comentou.

De acordo com a Jovem Pan, um grupo de aliados aconselhou Flávio a ir para os EUA, e apenas o círculo mais próximo sabia da decisão.

O que dizem a campanha e os aliados

Mesmo depois das novas informações, o comando da campanha manteve a negativa. Rogério Marinho reafirmou ao Metrópoles que Flávio não deixou o país e estaria em Brasília. Eduardo Bolsonaro chamou as notícias de mentira e atribuiu a história à esquerda, que estaria tentando provocar medidas judiciais contra o irmão.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) chegou a publicar que Flávio teria fugido “a pé”, mas apagou a postagem em seguida.

Segundo a Jovem Pan, seguranças da residência do senador em Brasília, de plantão desde as 7h, não registraram movimentação no imóvel. Integrantes do PL passaram a cobrar que Flávio divulgue um vídeo ou uma nota explicando onde está. Até a publicação desta matéria, ele não havia se manifestado.

A reação no governo Lula

A possível fuga também provocou desconforto no Palácio do Planalto, mas com Moraes no centro das críticas. Segundo a colunista Milena Teixeira, do Metrópoles, ministros do governo atribuem ao magistrado parte da responsabilidade pelo episódio.

“Passa de criminoso para perseguido”, disse um ministro à coluna, sobre o efeito político da decisão. Senadores aliados de Lula classificaram a medida de Moraes, em conversas reservadas, como “inadequada” e “precipitada”.

O Ministério da Justiça e a PF, em ação conjunta, pediram ao governo argentino que investigue o caso.

Por que Flávio é investigado

A ordem de Moraes faz parte de uma investigação sob sigilo no STF. Segundo a Gazeta do Povo, Flávio é alvo de três apurações na Corte, incluindo suspeitas de ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso, dono do liquidado Banco Master, e com o advogado Willer Tomaz.

Tomaz, apontado como amigo próximo do senador, é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. Ele seria “usuário master” de uma conta bancária empresarial supostamente usada no esquema. A Jovem Pan informa que a investigação também envolve o financiamento de “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. A decisão de Moraes proibiu Flávio de manter contato com o advogado “por qualquer meio, direto ou por interposta pessoa”.

Ser investigado não significa culpa. O senador nega qualquer irregularidade.

O que pode acontecer agora

Com a saída do país confirmada pela PF, Flávio passa a estar em situação de descumprimento de uma ordem do Supremo. Os próximos passos dependem de decisões que ainda não foram tomadas, mas alguns caminhos são possíveis:

  • Medidas mais duras no STF: o descumprimento de medidas cautelares pode levar a um pedido de prisão preventiva. Por ser senador, Flávio tem prerrogativas previstas na Constituição, e qualquer medida desse tipo segue regras específicas para parlamentares.
  • Cooperação internacional: com os passaportes cancelados e comunicados ao Itamaraty, autoridades brasileiras podem acionar os Estados Unidos por meio de mecanismos de cooperação. Um eventual pedido de extradição depende de decisões políticas e judiciais nos dois países e costuma levar tempo.
  • Desgaste político: o episódio acontece no momento em que Flávio prometia “organizar a oposição” e contestar o resultado da eleição na Justiça Eleitoral. A ausência do principal nome da oposição, fora do país, muda o cenário para o PL e para a direita nos próximos meses.
  • Mandato no Senado: Flávio segue senador. Faltas prolongadas e uma eventual condenação podem ter efeito sobre o mandato, mas isso depende de processos ainda inexistentes.

O que já está confirmado e o que falta esclarecer

Confirmado até agora:

  • Moraes proibiu Flávio de deixar o país e mandou cancelar seus passaportes;
  • o prazo para a entrega dos documentos terminou às 11h desta terça sem que fossem entregues;
  • a defesa não encontrou o senador em Brasília;
  • a PF confirmou à Gazeta do Povo que ele deixou o Brasil;
  • um aliado próximo confirmou à Reuters que ele foi para os EUA;
  • a PF cancelou os passaportes e vai comunicar o Itamaraty.

Ainda sem confirmação:

  • se Flávio já chegou aos Estados Unidos e em qual cidade;
  • por onde ele saiu do Brasil, já que a Argentina nega a entrada;
  • qual aeronave foi usada;
  • se a esposa e as filhas viajaram com ele;
  • quando e como ele vai se pronunciar.

O Portal O Vale Quer Saber segue acompanhando o caso e atualiza esta matéria a cada nova informação oficial da Polícia Federal, do STF, do governo ou do próprio senador.

Matéria atualizada com informações disponíveis até a tarde de terça-feira, 27 de outubro de 2026.

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FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber