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O Brasil chega às eleições de outubro de 2026 com o eleitorado mais velho de sua história recente. Pela primeira vez, quase um em cada quatro votos válidos deve sair de uma pessoa com 60 anos ou mais — um fenômeno que já reorganiza o debate político e amplia o peso da chamada "terceira idade" nas urnas, tanto em nível nacional quanto na Bahia.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o país soma atualmente 37,5 milhões de eleitores com 60 anos ou mais, o equivalente a 23,6% do eleitorado nacional. O número representa a maior participação histórica dessa faixa etária no processo eleitoral brasileiro.
O que dizem os números do TSE
O crescimento do eleitorado idoso não é um movimento recente, mas ganhou força acelerada na última década. Em 2010, pessoas com 60 anos ou mais representavam 15,3% do total de eleitores aptos a votar. Em 2026, essa fatia já ultrapassa 23%, um avanço de quase oito pontos percentuais em pouco mais de dez anos.
Alguns números ajudam a dimensionar essa mudança:
- O grupo de 60 a 69 anos soma hoje quase 20 milhões de eleitores;
- Outros 16,6 milhões têm 70 anos ou mais — faixa em que o voto deixa de ser obrigatório;
- Desde 2010, o eleitorado com mais de 60 anos cresceu cerca de 74%;
- No mesmo período, o eleitorado total do país avançou apenas 15%.
Na comparação direta com o pleito anterior, o salto também chama atenção: o grupo 60+ passou de 32,9 milhões de eleitores em 2022 para os atuais 37,5 milhões, um acréscimo de mais de 4,5 milhões de pessoas em quatro anos.
O Brasil, ao todo, terá 158,7 milhões de eleitores aptos a votar no primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Um segundo turno, se necessário, ocorre em 25 de outubro.
Bahia acompanha a tendência nacional
O fenômeno também é sentido na Bahia, um dos maiores colégios eleitorais do país. O estado soma 11,3 milhões de eleitores aptos a votar em 2026, dos quais 2,44 milhões têm 60 anos ou mais — o que representa 21,56% do eleitorado baiano.
O crescimento em relação à eleição de 2022 foi expressivo. Naquele ano, o público 60+ correspondia a pouco mais de 2,23 milhões de pessoas no estado. De lá para cá, a faixa etária cresceu 9,33% em território baiano.
Dentro desse grupo, o avanço mais acentuado ocorreu entre os eleitores de 70 a 79 anos, com alta de 17,25% em quatro anos, seguido pela faixa de 65 a 69 anos, que cresceu 16,29%. Já a faixa de 60 a 64 anos ganhou mais de 88 mil novos eleitores no período.
Na capital baiana, a proporção de eleitores idosos segue praticamente a mesma média nacional, em torno de 23% dos votantes. Entre os municípios com maior eleitorado do interior, Feira de Santana e Vitória da Conquista também registram parcelas relevantes de eleitores acima de 60 anos.
O contraponto: queda entre os jovens
Enquanto o eleitorado idoso cresce, o número de jovens eleitores segue em queda constante — tanto no país quanto na Bahia. No recorte nacional, a faixa de 21 a 34 anos caiu de 28,01% para 25,85% do total de eleitores entre 2022 e 2026.
Já entre os eleitores de 16 a 24 anos, o levantamento do TSE mostra recuo de 18,2% para 12,0% da base eleitoral desde 2010. Na Bahia, o movimento se repete: jovens entre 16 e 24 anos perderam 178 mil eleitores em relação à eleição de 2022.
Esse cruzamento de curvas — alta constante entre os mais velhos e queda entre os mais jovens — é o que especialistas chamam de inversão da pirâmide eleitoral, reflexo direto da transição demográfica em curso no Brasil.
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Por que o eleitorado está envelhecendo
O avanço do público 60+ nas urnas está diretamente ligado ao processo de envelhecimento da população brasileira, tema que também aparece em levantamentos do IBGE sobre a transição demográfica do país. As projeções indicam que essa tendência deve se intensificar nas próximas décadas, com a fatia de idosos ganhando peso cada vez maior dentro da pirâmide etária nacional.
Soma-se a isso a queda da taxa de natalidade registrada nas últimas décadas, que reduz proporcionalmente a entrada de novos eleitores jovens no sistema eleitoral a cada novo pleito. O resultado é um eleitorado que, ano após ano, concentra mais peso nas faixas etárias mais avançadas.
Esse movimento demográfico já influencia diretamente a formulação de políticas públicas e as estratégias de campanha. Temas como saúde pública, acesso a medicamentos, previdência social, assistência social, mobilidade urbana e custo de vida ganham espaço crescente no debate eleitoral, justamente por impactarem diretamente esse segmento — e, por extensão, suas famílias.
Participação nas urnas
Além de crescer em número, o eleitorado idoso também tende a comparecer mais às urnas do que a média geral do país, mesmo com o voto sendo facultativo a partir dos 70 anos. Ainda assim, a abstenção entre os eleitores mais velhos permanece um desafio: nas eleições de 2022, cerca de 8 milhões de eleitores com mais de 70 anos deixaram de votar, um dos maiores índices de abstenção entre todas as faixas etárias analisadas pelo TSE.
Segundo cientistas políticos consultados por veículos especializados no tema, a ausência nas urnas entre os mais velhos nem sempre está relacionada ao desinteresse pela política, mas a fatores como mobilidade reduzida, dificuldades de acesso ao local de votação e problemas de saúde.
O outro lado: idosos e desinformação
Se por um lado o eleitorado idoso ganha protagonismo político, por outro ele também é apontado como um público mais vulnerável à desinformação — o que o torna alvo estratégico de campanhas de fake news em período eleitoral.
Um estudo conduzido por pesquisadores das universidades de Princeton e Nova York (NYU), publicado na revista científica Science Advances, analisou o comportamento de usuários do Facebook durante a eleição presidencial americana de 2016. A conclusão: pessoas acima de 65 anos compartilharam, em média, sete vezes mais notícias falsas do que usuários entre 18 e 29 anos.
Segundo o levantamento, essa diferença se manteve mesmo quando os pesquisadores consideraram fatores como escolaridade, filiação partidária e posicionamento ideológico dos usuários. Já variáveis como gênero, raça e renda não apresentaram relação direta com a propensão a compartilhar conteúdo falso.
Especialistas em educação midiática apontam dois fatores centrais para explicar esse comportamento: a menor familiaridade de parte do público idoso com o ambiente digital e questões culturais ligadas ao uso de redes como WhatsApp e Facebook, plataformas em que a verificação de fontes costuma ser menor.
Diante desse cenário, o crescimento do eleitorado idoso reforça a importância de ações de checagem de fatos e educação midiática voltadas especificamente para esse público, especialmente em um pleito marcado pela disputa acirrada por votos em faixas etárias cada vez mais decisivas.
O que esperar para outubro
Com o eleitorado idoso avançando tanto no cenário nacional quanto no baiano, candidatos a cargos majoritários e proporcionais tendem a intensificar propostas voltadas à terceira idade nos próximos meses de campanha. A tendência é que temas como saúde, previdência e segurança ganhem ainda mais espaço nos debates e nas peças de campanha destinadas a esse eleitorado.
Para o eleitor da região do Vale do São Francisco, o cenário reforça a importância de acompanhar de perto as propostas dos candidatos a governador, senador e deputados — já que decisões tomadas em Brasília e em Salvador afetam diretamente políticas de saúde, mobilidade e assistência social voltadas à população idosa local.
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