O debate presidencial virou raridade nas eleições de 2026. A dez dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a Record anunciou o cancelamento do encontro entre os candidatos à Presidência da República que seria transmitido no domingo (27), às 21h. A decisão veio depois que o presidente Lula (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) recusaram o convite. Segundo a emissora, sem os dois candidatos que, juntos, somam mais de 70% das intenções de voto, o programa perderia o sentido.

É o terceiro episódio do tipo em pouco mais de um mês. Em agosto, a Band levou o debate ao ar sem os dois líderes das pesquisas e também sem Romeu Zema. Em setembro, um grupo de onze veículos de comunicação, entre eles CNN Brasil e SBT, cancelou o próprio evento porque nenhum dos dois favoritos confirmou presença. O próximo compromisso previsto é o debate da TV Globo, em 1º de outubro, mantido pela emissora mesmo com Lula e Flávio sinalizando que não devem comparecer.

Na prática, o eleitor brasileiro, inclusive o do Vale do São Francisco, corre o risco de chegar às urnas sem ter visto os dois principais nomes da disputa lado a lado, respondendo perguntas e confrontando propostas.

Publicidade
Publicidade

Leia Também:

Por que a Record cancelou o debate presidencial

Em nota, a Record explicou que a função de um debate às vésperas da votação é justamente reunir as principais propostas em disputa. "A emissora entende que um debate a poucos dias do primeiro turno tem a função de colocar frente a frente as principais propostas em disputa", afirmou. Sem Lula e Flávio, que concentram a maior parte das intenções de voto, a avaliação foi de que o programa não cumpriria esse papel.

A emissora não descartou a realização de um encontro mais adiante. A Record mantém reservada a data de 11 de outubro para um possível debate de segundo turno, caso a eleição presidencial não seja decidida já no dia 4.

A decisão da Record repete o raciocínio adotado pelo pool de veículos em setembro e contrasta com a escolha feita pela Band em agosto, que optou por realizar o debate mesmo com cadeiras vazias.

Linha do tempo dos debates esvaziados

Para entender como a campanha chegou a esse ponto, vale olhar a sequência dos acontecimentos:

  • 23 de agosto — Band: a emissora realizou o primeiro debate presidencial da campanha. Participaram Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado. Flávio Bolsonaro, Lula e Romeu Zema não compareceram.
  • 8 de setembro — pool "O Momento da Decisão": o grupo formado por CNN Brasil, Exame, Metrópoles, Nova Brasil FM, Rádio Itatiaia, RedeTV!, Rede Vida, SBT, SBT News, Terra e VEJA+ TV anunciou o cancelamento do debate presidencial previsto para 14 de setembro. O prazo para confirmação terminou em 7 de setembro sem resposta positiva de Lula e de Flávio.
  • 23 de setembro — Record: a emissora comunicou que não fará o debate marcado para o domingo (27), após as recusas dos dois candidatos.
  • 1º de outubro — TV Globo: último debate previsto antes do primeiro turno, confirmado pela emissora, apesar dos sinais de ausência dos favoritos.

Na nota do pool, os veículos foram diretos sobre o motivo: "Encerrado o prazo, e diante da ausência de confirmação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os veículos que integram O Momento da Decisão decidiram pelo cancelamento do debate presidencial." Na mesma ocasião, o grupo também cancelou o debate para o governo de São Paulo, que seria realizado em 18 de setembro, por falta de confirmação do governador Tarcísio de Freitas.

O cálculo de campanha por trás das ausências

A ausência simultânea dos dois líderes das pesquisas não é coincidência. Ela reflete uma lógica de campanha que costuma aparecer quando um ou mais candidatos entendem que têm mais a perder do que a ganhar num debate.

Para Lula, comparecer a um encontro sem Flávio Bolsonaro significaria enfrentar sozinho uma bancada formada apenas por adversários, todos com interesse em atacar o governo. O presidente se tornaria o alvo preferencial das perguntas e das réplicas, sem ter do outro lado o principal concorrente para dividir a atenção.

Para Flávio, a situação é parecida. Ir a um debate sem Lula faria dele o principal alvo dos demais candidatos, que disputam justamente o eleitorado mais próximo do campo da direita e teriam incentivo para marcar diferença em relação ao senador.

Com os dois fazendo a mesma conta, forma-se um impasse: nenhum deles vai sem o outro, e as emissoras avaliam se vale a pena manter um programa sem os nomes que concentram a maior parte dos votos. O resultado, até aqui, tem sido o esvaziamento ou o cancelamento dos encontros.

Debate não é obrigatório, nem para emissoras nem para candidatos

A legislação eleitoral brasileira permite, mas não obriga, a realização de debates. A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) estabelece regras para garantir equilíbrio quando os programas acontecem, como a obrigatoriedade de convidar candidatos de partidos com representação mínima no Congresso Nacional. Não existe, no entanto, qualquer punição para o candidato que recusa o convite, nem exigência de que a emissora mantenha o evento quando os principais convidados não aparecem.

Isso explica por que cada veículo tem tomado decisões diferentes. A Band preferiu seguir com quem estava disposto a participar. O pool e a Record entenderam que, sem os favoritos, o formato perderia a razão de existir. A Globo, por enquanto, mantém a programação.

O que o eleitor perde sem o debate presidencial

Os debates na televisão são, historicamente, um dos momentos de maior audiência da reta final das campanhas. Diferentemente do horário eleitoral gratuito, em que cada candidato controla a própria mensagem, o debate expõe os participantes a perguntas de adversários e jornalistas, sem roteiro prévio e com tempo limitado para resposta.

É nesse ambiente que o eleitor costuma observar como cada candidato reage sob pressão, se domina os temas que apresenta na propaganda e como responde a críticas diretas. Também é no debate que propostas ficam lado a lado, o que facilita a comparação.

Sem esses encontros, a informação que chega ao eleitor passa a depender quase exclusivamente de canais controlados pelas próprias campanhas, como a propaganda na TV e no rádio e os perfis nas redes sociais, além de entrevistas e sabatinas individuais, em que cada candidato é questionado separadamente.

Receba mais notícias entre no grupo do Whatsapp

Um palco que Lula e Flávio dividem: o caso Banco Master

Se não se encontram nos estúdios de televisão, Lula e Flávio Bolsonaro dividem outro espaço da campanha: o das críticas relacionadas ao escândalo do Banco Master, instituição do banqueiro Daniel Vorcaro que foi liquidada pelo Banco Central. Adversários de ambos têm usado o caso para questionar os dois principais candidatos.

Flávio Bolsonaro e o filme "Dark Horse"

O nome de Flávio entrou na história em maio, quando o site Intercept Brasil divulgou um áudio de novembro de 2025 em que o senador cobra de Vorcaro a continuidade de repasses para o "Dark Horse", filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O valor total pedido para a produção chegaria a R$ 134 milhões, o equivalente a cerca de US$ 24 milhões. Na mensagem, o senador relata dificuldades para pagar a equipe do filme e demonstra preocupação em honrar compromissos com atores e diretores.

Segundo as reportagens, cerca de R$ 61 milhões (US$ 10,6 milhões) já haviam sido transferidos em seis repasses realizados entre fevereiro e maio de 2025. Em entrevista à GloboNews, Flávio afirmou que o último pagamento feito por Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025.

Recentemente, porém, veio a público um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que registra um novo repasse de US$ 1,6 milhão, feito em 16 de setembro de 2025. Segundo a CNN Brasil, o dinheiro foi enviado ao fundo Havengate Development Fund, que repassava os recursos à Go Up Entertainment, produtora do filme.

Questionado no Senado sobre a transferência, Flávio respondeu: "Pergunte para a produtora que parcela é essa. O valor está na prestação de contas." O senador nega qualquer irregularidade e sustenta que buscou patrocínio privado para um filme privado, sem uso de dinheiro público ou de recursos da Lei Rouanet.

Lula e as mensagens do advogado de Vorcaro

Lula passou a aparecer no caso nesta semana, com a divulgação de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. As conversas envolvem o advogado Walfrido Warde, que representava o banqueiro à época.

Em uma mensagem de 22 de janeiro de 2025, Warde escreve a Vorcaro: "Querido, estive com o PR hoje. Ele me perguntou se você estava bem e mais tranquilo. Eu lhe disse que sim. Ele agradeceu mais uma vez o whisky e mandou um abraço." A sigla "PR" é usada como referência ao presidente da República. Nas conversas, o advogado também indica que Lula toparia um novo encontro com o banqueiro.

O Palácio do Planalto nega o recebimento do presente. Em nota, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) afirmou que "o presidente não tem conhecimento da suposta articulação, não recebeu presente". O governo sustenta que Lula e Vorcaro se encontraram uma única vez, em 4 de dezembro de 2024. Segundo o Planalto, o banqueiro foi levado pelo ex-ministro Guido Mantega, e a reunião contou também com a presença do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e de Gabriel Galípolo. O tema da conversa teria sido a concentração do sistema bancário.

Um tema que deve seguir na campanha, mesmo sem debate

A coincidência entre o esvaziamento dos debates e o avanço do caso Banco Master cria uma situação particular na reta final da eleição. Os dois assuntos estão entre os mais citados pelos adversários, mas os principais envolvidos não participam dos espaços em que poderiam ser questionados diretamente por eles.

Com isso, o tema tende a continuar aparecendo por outros caminhos: na propaganda eleitoral dos demais candidatos, em entrevistas, nas redes sociais e no noticiário, à medida que novas informações das investigações se tornam públicas. As defesas de Lula e de Flávio, por sua vez, seguem negando irregularidades e contestando as interpretações dadas aos documentos divulgados.

Como o eleitor do Vale pode se informar até 4 de outubro

Mesmo sem os debates tradicionais, há outros caminhos para quem quer comparar os candidatos antes de votar:

  • Horário eleitoral gratuito: a propaganda no rádio e na TV segue até a antevéspera da eleição e apresenta as propostas de cada campanha, com a ressalva de que o conteúdo é produzido pelos próprios candidatos.
  • Planos de governo: todos os candidatos à Presidência são obrigados a registrar suas propostas na Justiça Eleitoral. Os documentos podem ser consultados no sistema DivulgaCandContas, no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
  • Entrevistas e sabatinas: emissoras e veículos de imprensa têm realizado entrevistas individuais com os candidatos, formato em que cada um é questionado separadamente por jornalistas.
  • Debate da Globo: o encontro de 1º de outubro segue confirmado. Mesmo que os favoritos não compareçam, os participantes presentes apresentarão suas propostas.
  • Checagem de informações: diante do volume de conteúdo nas redes sociais, é importante conferir notícias em veículos de imprensa e em agências de checagem antes de compartilhar.

Para o eleitor da região, vale ainda acompanhar como cada candidato trata temas de interesse direto do Vale do São Francisco, como a agricultura irrigada, a segurança hídrica, a infraestrutura de transporte e os investimentos em saúde e educação no semiárido. Esses pontos costumam aparecer nos planos de governo registrados no TSE e podem orientar uma comparação mais concreta entre as propostas.

O que vem pela frente

A expectativa agora se volta para o debate da TV Globo, em 1º de outubro, último encontro previsto antes do primeiro turno. Até a publicação desta matéria, Lula e Flávio Bolsonaro indicavam que não devem participar. Caso a ausência se confirme, a campanha presidencial de 2026 terminará o primeiro turno sem um único debate com os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas.

Se houver segundo turno, marcado para 25 de outubro, o cenário pode mudar. Com apenas dois candidatos na disputa, desaparece o argumento de que a presença em um debate significaria enfrentar sozinho vários adversários. A Record, por exemplo, já reservou a data de 11 de outubro para um possível encontro nessa etapa.

Até lá, o eleitor terá de reunir informações por outros caminhos para decidir o voto. O Portal O Vale Quer Saber seguirá acompanhando a agenda dos candidatos, os desdobramentos do caso Banco Master e tudo o que interessa ao eleitor do Vale do São Francisco na reta final das eleições 2026.

Portal O Vale Quer Saber - A informação que conecta o Vale

FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber