A recente decisão do governo federal de barrar as operações das empresas de apostas online no Brasil trouxe alívio para milhares de cidadãos afetados pelo vício em apostas, problema que acumulou severas perdas financeiras e danos graves à saúde mental em todo o país nos últimos anos.

A história de Kaio (nome fictício), de 42 anos, ilustra a dimensão do transtorno. Após perder emprego, carro e casa, ele precisou se afastar da família e dormir no chão de um alojamento no interior de Goiás por conta de ameaças de agiotas. Atualmente, busca reconstruir a vida com apoio médico e terapêutico em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

Histórico regulatório e falhas de controle

A proibição das bets foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva via medida provisória, revogando trechos da Lei 13.756, aprovada em 2018 no fim do governo Michel Temer. Embora autorizadas há anos, essas plataformas só foram regulamentadas ao final de 2023, funcionando por longo período sem diretrizes claras de proteção ao consumidor.

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Mesmo após a criação de regras que exigiam mecanismos de aviso e bloqueio para usuários compulsivos, especialistas apontam que as normas não foram cumpridas na prática. Em vez de impor limites, as plataformas continuaram enviando bônus e notificações incessantes para atrair e reter os apostadores.

Perdas financeiras e impacto em jovens

Segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as plataformas entre outubro de 2024 e março de 2026. O montante representa 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, impulsionado por movimentações expressivas que somaram quase R$ 351 bilhões via Pix.

O problema também atingiu em cheio o público jovem. Pesquisa promovida pela Equidade.info revelou que 20,4% dos estudantes do ensino fundamental II e médio já fizeram apostas online. O levantamento identificou episódios de início no jogo a partir dos 11 anos de idade, cenário agravado pela imaturidade do cérebro adolescente em controlar impulsos.

Riscos à saúde mental e atendimento pelo SUS

Especialistas alertam para os riscos severos associados à dependência, como crises de ansiedade, desesperança e ideação suicida. A psiquiatra Katia Branco destaca que falas sobre desistir da vida exigem intervenção médica e acolhimento imediato, reforçando a relevância do suporte profissional em momentos de crise financeira aguda.

Para mitigar a crise sanitária, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou os teleatendimentos e planeja ações de busca ativa para contatar apostadores frequentes, em cooperação com órgãos federais. Entidades de saúde reforçam a importância de familiares e amigos auxiliarem no direcionamento dos afetados para a rede de apoio público.

*Nomes fictícios foram utilizados a pedido dos entrevistados para preservar suas identidades.

FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber