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A federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP), anunciou nesta terça-feira (6) apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial de 2026. O senador enfrenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, na votação marcada para 25 de outubro.
O anúncio foi feito pela senadora Tereza Cristina (PP-MS). Segundo ela, a decisão foi tomada por unanimidade pela federação e pelas executivas nacionais dos dois partidos, que se reuniram nesta terça. Os presidentes do PP, senador Ciro Nogueira, e do União Brasil, Antonio Rueda, participaram do encontro.
No primeiro turno, realizado no domingo (4), Flávio Bolsonaro recebeu mais de 56 milhões de votos e terminou na frente. Lula teve 53,8 milhões. A diferença entre os dois ficou em pouco mais de 2,2 milhões de votos, margem que coloca o segundo turno como uma disputa aberta.
O apoio da União Progressista se soma a outras adesões anunciadas desde o fim da apuração. Na segunda-feira (5), o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) declarou voto em Flávio. Nesta terça, foi a vez do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), em evento realizado em Goiânia.
Como a federação chegou à decisão
A posição anunciada nesta terça encerra um período de indefinição da federação em relação à disputa presidencial. Em julho, antes das convenções, a União Progressista sinalizou que manteria neutralidade no primeiro turno.
Na época, dois fatores pesaram na decisão: a necessidade de dar liberdade às direções estaduais, que fazem alianças diferentes conforme a realidade de cada estado, e a falta de consenso interno em torno da candidatura de Flávio. Em 22 de julho, Ciro Nogueira comunicou pessoalmente ao senador do PL que a federação não integraria formalmente a coligação.
Um dia antes, em 21 de julho, Tereza Cristina havia recusado o convite para ser vice na chapa de Flávio. A senadora afirmou, naquele momento, que seu objetivo era disputar a presidência do Senado Federal. A recusa foi confirmada pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
Com o fim do primeiro turno e a definição dos dois finalistas, o cenário mudou. A decisão desta terça tem dois efeitos práticos:
- Unifica a orientação nacional de dois partidos que, no primeiro turno, tiveram integrantes em palanques diferentes;
- Coloca a estrutura partidária da federação — diretórios estaduais, prefeitos, deputados e senadores — à disposição da campanha de Flávio nas próximas três semanas.
O fato de a própria Tereza Cristina, que recusou a vaga de vice em julho, ser a responsável pelo anúncio também tem peso político. A senadora é uma das principais lideranças do agronegócio no Congresso e foi ministra da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro.
Zema declara voto e diz que não ficará "em cima do muro"
Antes da federação, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência, já havia anunciado posição. Na segunda-feira (5), ele declarou voto em Flávio Bolsonaro.
"Eu não vou me omitir nem ficar em cima do muro nesse momento tão importante. Voto contra o PT. Voto no Flávio Bolsonaro. O Brasil não aguenta mais 4 anos de Lula, nem mais 4 ministros nomeados pelo Lula. Estamos juntos no dia 25, conto com você", afirmou Zema.
O ex-governador foi o sexto colocado na disputa presidencial. Ele recebeu 326.488 votos, o equivalente a 0,27% dos votos válidos, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O desempenho ficou abaixo do que o próprio Novo projetava no início da campanha. Em agosto, a pesquisa Genial/Quaest registrava Zema com 2% das intenções de voto no primeiro turno. Mesmo com votação reduzida, a declaração de apoio tem valor simbólico em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, estado que Zema governou por dois mandatos.
Cury e Renan Santos não vão apoiar nenhum dos dois
Nem todos os candidatos derrotados no primeiro turno escolheram um lado. Augusto Cury (Avante), terceiro colocado, e Renan Santos (Missão), que ficou em quarto lugar, já informaram que não vão apoiar Flávio Bolsonaro nem Lula no segundo turno.
A posição dos dois é relevante porque, somados, eles reuniram uma parcela de eleitores que agora fica sem orientação formal. Em uma disputa decidida por pouco mais de 2 milhões de votos no primeiro turno, a forma como esse eleitorado vai se comportar — votando em um dos finalistas, anulando, votando em branco ou deixando de comparecer — pode influenciar o resultado.
Renan Santos, em especial, chamou atenção ao longo da pré-campanha. Na pesquisa Genial/Quaest de agosto, ele tinha a menor rejeição entre os nomes testados (16%), mas também o maior índice de desconhecimento (74%). O crescimento ao longo da campanha levou o candidato do Missão ao quarto lugar, à frente de nomes com mais tempo de vida pública, como Caiado e Zema.
O mapa de apoios no segundo turno até agora
Dois dias após o primeiro turno, o quadro de adesões dos principais derrotados está assim:
- Ronaldo Caiado (PSD) — quinto colocado, cerca de 2,6 milhões de votos (2,18% dos válidos): apoia Flávio Bolsonaro;
- Romeu Zema (Novo) — sexto colocado, 326.488 votos (0,27%): apoia Flávio Bolsonaro;
- Federação União Progressista (União Brasil e PP): apoia Flávio Bolsonaro;
- Augusto Cury (Avante) — terceiro colocado: neutro;
- Renan Santos (Missão) — quarto colocado: neutro.
Do lado de Lula, a campanha conta com a base de partidos que já integravam a coligação no primeiro turno e com o reforço de governadores eleitos e reeleitos, sobretudo no Nordeste. Novas declarações de apoio, de um lado e de outro, são esperadas ao longo da semana, à medida que partidos e lideranças regionais concluem suas reuniões internas.
O peso real da União Progressista na disputa
Apoio partidário não se converte automaticamente em voto. O eleitor brasileiro, em geral, decide o voto presidencial com base em fatores como avaliação do governo, rejeição aos candidatos e temas do cotidiano, e não pela orientação do partido. Ainda assim, a adesão de uma federação do tamanho da União Progressista tem impacto em três frentes.
Estrutura e capilaridade
União Brasil e PP estão entre as legendas com maior número de prefeitos, vereadores e deputados no país. Essa rede funciona como base de mobilização em cidades pequenas e médias, onde lideranças locais têm influência sobre o comparecimento do eleitor às urnas.
Comparecimento
No segundo turno, a abstenção costuma ser decisiva. Segundo análise da Genial Investimentos sobre o primeiro turno, a abstenção no Nordeste foi de 18,4%, a menor entre as regiões, enquanto no Sudeste chegou a 22,7%. Para Flávio, que tem melhor desempenho no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a mobilização de prefeitos e lideranças da federação pode ajudar a reduzir a ausência de eleitores nessas regiões.
Sinalização política
A decisão unânime de dois partidos que, no primeiro turno, preferiram não se comprometer reforça a imagem de unificação do campo da centro-direita em torno do candidato do PL. É o mesmo movimento observado em Goiânia, onde Caiado, a senadora eleita Gracinha Caiado (União Brasil) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), subiram no mesmo palanque.
Por outro lado, há limites. Partidos com bases heterogêneas, como União Brasil e PP, têm integrantes que, em alguns estados, fizeram alianças com o PT ou com partidos da base do governo federal. A orientação nacional não garante que todos os diretórios e lideranças locais se engajem com a mesma intensidade na campanha de Flávio.
O que a eleição de 2022 mostra sobre apoios no segundo turno
A movimentação desta semana repete um roteiro conhecido da política brasileira. Em 2022, logo após o primeiro turno, candidatos derrotados e partidos também anunciaram posição em poucos dias.
Naquele ano, a senadora Simone Tebet (MDB), terceira colocada, declarou apoio a Lula e passou a participar de agendas da campanha petista. O PDT, partido de Ciro Gomes, quarto colocado, também orientou voto em Lula. Do outro lado, Jair Bolsonaro recebeu a adesão de governadores eleitos e reeleitos, entre eles o próprio Romeu Zema, então reconduzido ao governo de Minas Gerais, e o governador de São Paulo à época, Rodrigo Garcia.
O resultado final mostrou o limite e a importância desses movimentos. Lula venceu o segundo turno de 2022 com 50,9% dos votos válidos, uma diferença de pouco mais de 2,1 milhões de votos — margem semelhante à registrada agora entre Flávio e Lula no primeiro turno de 2026.
A comparação ajuda a entender três pontos sobre a disputa atual:
- Apoios não transferem votos de forma integral. O eleitor de um candidato derrotado não segue automaticamente a orientação de quem perdeu;
- Em disputas apertadas, pequenas parcelas fazem diferença. Uma transferência parcial, somada à variação no comparecimento, pode definir o vencedor;
- O peso regional conta. Apoios de lideranças com base forte em determinados estados tendem a influenciar mais o resultado nesses locais do que no restante do país.
Em 2026, há uma diferença em relação a 2022: dois dos candidatos que terminaram à frente de Caiado e Zema — Augusto Cury e Renan Santos — optaram pela neutralidade. Isso deixa uma fatia do eleitorado sem orientação e transforma esse grupo em alvo das duas campanhas nas próximas semanas.
Quem é Tereza Cristina, responsável pelo anúncio
Senadora por Mato Grosso do Sul, Tereza Cristina é engenheira agrônoma e construiu a carreira política ligada ao setor agropecuário. Foi deputada federal, presidiu a Frente Parlamentar da Agropecuária e comandou o Ministério da Agricultura entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro.
No Senado, tornou-se uma das vozes mais influentes do PP e mantém interlocução com diferentes campos políticos. Esse trânsito explica por que seu nome foi cogitado como vice na chapa de Flávio e por que coube a ela comunicar a decisão da federação nesta terça.
O que muda para Bahia, Pernambuco e o Vale do São Francisco
No Vale do São Francisco, o anúncio da federação ganha um contorno particular. Na Bahia, o União Brasil é o partido do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, que disputou o governo do estado no domingo e foi derrotado no primeiro turno pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT). Jerônimo foi reeleito com 55,80% dos votos válidos; ACM Neto ficou com 43,73%, uma diferença de cerca de 1 milhão de votos.
O resultado estadual mostra que a federação tem estrutura e eleitorado na Bahia, mas também que o grupo político de ACM Neto saiu das urnas enfraquecido no plano estadual. Ainda não há informação sobre como as lideranças baianas da federação vão atuar na campanha presidencial do segundo turno.
Na região, o União Brasil elegeu nomes com base eleitoral no Norte baiano, como o deputado federal Elmar Nascimento e o deputado estadual Júnior Nascimento. A atuação dessas lideranças nas próximas semanas será um termômetro do engajamento da federação no estado.
Os números de pesquisa ajudam a dimensionar o desafio. No levantamento Genial/Quaest de agosto, Lula tinha 59% das intenções de voto no Nordeste, contra 20% de Flávio Bolsonaro, e a aprovação do governo federal na região era de 66%. A pesquisa não traz recorte por estado, mas o Nordeste segue como a região mais favorável ao presidente.
Em Pernambuco, o comportamento do eleitor no segundo turno também deve ser influenciado pelo posicionamento das principais lideranças estaduais e pelos acordos locais firmados por PP e União Brasil.
Para o Vale, o efeito mais provável é indireto. Com uma disputa nacional apertada, cada voto conquistado por Flávio em outras regiões aumenta a pressão sobre a campanha de Lula para ampliar a votação em estados como Bahia e Pernambuco. Ao mesmo tempo, a campanha de Flávio tende a buscar reduzir a diferença no Nordeste com apoio de lideranças locais da federação.
Temas que fazem parte do cotidiano do Vale — segurança hídrica, irrigação, fruticultura irrigada voltada à exportação, logística e programas sociais — devem aparecer com mais frequência no discurso dos dois candidatos nas próximas semanas.
Próximos passos até 25 de outubro
A campanha de segundo turno segue até a véspera da votação. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão é retomado, agora com tempo dividido igualmente entre os dois candidatos.
Nos próximos dias, devem ser conhecidas as posições de outros partidos e de governadores, senadores e prefeitos eleitos no domingo. Também segue em aberto a realização de debates entre Lula e Flávio Bolsonaro, que não participaram de encontros promovidos por emissoras de televisão no primeiro turno.
A votação do segundo turno acontece no domingo, 25 de outubro. O eleitor deve comparecer à mesma seção onde votou no primeiro turno, levando documento oficial com foto ou utilizando o aplicativo e-Título. Quem não votou no primeiro turno também pode votar no segundo, desde que esteja com o título regular.
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