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A mais recente pesquisa para governador de Pernambuco trouxe uma mudança de cenário na reta final da campanha. Dois levantamentos divulgados em sequência, na segunda-feira (28) e nesta terça-feira (29), mostram João Campos (PSB) numericamente à frente da governadora Raquel Lyra (PSD), que disputa a reeleição.
No Ipespe, João Campos aparece com 46,2% das intenções de voto, contra 44,7% de Raquel Lyra. No Instituto França, o candidato do PSB soma 42,07%, e a governadora, 40,44%, uma diferença de 1,63 ponto percentual.
Nos dois casos, a distância entre os candidatos está dentro da margem de erro, o que configura, do ponto de vista estatístico, empate técnico. O dado que chama a atenção, porém, é outro: institutos diferentes, com amostras e metodologias próprias, registraram o mesmo movimento no mesmo período, com João Campos saindo da segunda para a primeira posição numérica.
O que mostram as pesquisas Ipespe e Instituto França
Ipespe: primeira inversão da série
O Ipespe, em levantamento contratado pela Folha de Pernambuco, registrou pela primeira vez em sua série histórica João Campos à frente de Raquel Lyra no primeiro turno. Os números da pesquisa estimulada, quando os nomes dos candidatos são apresentados ao eleitor, ficaram assim:
- João Campos (PSB): 46,2%
- Raquel Lyra (PSD): 44,7%
- Ivan Moraes (PSOL): 1%
- Professora Camila (UP): 0,6%
- Renan Hallais (Missão): 0,2%
- Brancos, nulos e nenhum: 4,7%
- Não souberam ou não responderam: 2,6%
Na simulação de segundo turno, o instituto registrou João Campos com 48% e Raquel Lyra com 46%. Em rejeição, os dois aparecem praticamente empatados: 40% dos entrevistados dizem que não votariam em Raquel Lyra, e 39% afirmam o mesmo sobre João Campos.
Para entender o tamanho da mudança, vale olhar para trás. Em junho, a mesma série Folha/Ipespe mostrava Raquel Lyra com 44% e João Campos com 42% no primeiro turno. Em julho, no cenário de segundo turno, a governadora aparecia com 47%, contra 45% do adversário. Agora, a posição se inverteu nos dois cenários.
O Ipespe ouviu 1.000 eleitores de forma presencial em Pernambuco, entre os dias 23 e 25 de setembro. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais, e a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número PE-04196/2026.
Instituto França confirma o movimento
Um dia depois, o Instituto França divulgou levantamento que aponta na mesma direção. João Campos aparece com 42,07%, e Raquel Lyra, com 40,44%. A diferença de 1,63 ponto percentual também fica abaixo da margem de erro da pesquisa.
Os percentuais mais baixos dos dois principais candidatos, na comparação com o Ipespe, indicam uma fatia maior do eleitorado distribuída entre outros nomes, votos brancos, nulos e indecisos. Isso é comum quando institutos usam métodos distintos de apresentação dos nomes ou de tratamento das respostas, e reforça que os números de institutos diferentes não devem ser comparados ponto a ponto. O que pode ser comparado é a direção do resultado.
O Instituto França entrevistou 1.500 eleitores de forma presencial em Pernambuco, também entre os dias 23 e 25 de setembro. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais. O registro no Tribunal Superior Eleitoral foi feito sob os números PE-08681/2026 e BR-06784/2026.
Um terceiro levantamento na mesma direção
As duas pesquisas não são as únicas a registrar o movimento. No domingo (27), o Instituto Revista Total Brasil divulgou levantamento com João Campos com 48% e Raquel Lyra com 44%, diferença de quatro pontos. Foram ouvidos 1.200 eleitores entre 21 e 24 de setembro, com margem de erro de 2,83 pontos percentuais e registro PE-06556/2026.
Com isso, as três pesquisas mais recentes divulgadas no estado apresentam o candidato do PSB numericamente à frente, ainda que em nenhuma delas a vantagem ultrapasse com folga a margem de erro.
Empate técnico, mas com tendência definida
Na leitura de pesquisas eleitorais, é preciso separar duas informações: a fotografia de cada levantamento e a tendência que surge quando vários levantamentos são observados em conjunto.
Na fotografia, o cenário é de empate técnico. Pela margem de erro do Ipespe, João Campos pode ter entre 43% e 49,4%, e Raquel Lyra, entre 41,5% e 47,9%. As faixas se sobrepõem, o que impede afirmar, com segurança estatística, que um candidato está efetivamente à frente do outro.
Na tendência, o quadro é mais claro. Ao longo da campanha, Raquel Lyra ocupou a primeira posição na maior parte dos levantamentos divulgados. A pesquisa Genial/Quaest de julho, por exemplo, mostrava a governadora com 43% contra 37% de João Campos, uma vantagem de seis pontos, fora da margem de erro. Também em julho, a Quaest registrava Raquel Lyra à frente no segundo turno, por 45% a 39%.
Dois meses depois, o que se vê é:
- Uma vantagem que deixou de existir, com os dois candidatos agora separados por menos de dois pontos nas pesquisas presenciais divulgadas nesta semana;
- Uma inversão de posição repetida em pelo menos três institutos diferentes;
- Uma rejeição equilibrada, o que reduz a margem de manobra de ambos para conquistar os eleitores que ainda não definiram o voto.
Quando o mesmo movimento aparece em pesquisas independentes, com amostras e trabalhos de campo distintos, diminui a chance de que o resultado seja fruto de uma oscilação isolada ou de uma característica metodológica de um único instituto. É esse o ponto que dá peso à mudança registrada nesta semana.
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Os fatores que ajudam a explicar o cenário
O peso de Lula no eleitorado pernambucano
Um dos elementos de contexto é o desempenho do presidente Lula (PT) no Nordeste e, em especial, em Pernambuco, seu estado natal. As pesquisas presidenciais seguem mostrando o petista com vantagem na região, e esse ambiente tende a influenciar a disputa estadual.
João Campos é aliado declarado de Lula. Raquel Lyra, por sua vez, construiu ao longo do mandato um discurso mais associado à gestão e a uma posição de independência em relação à polarização nacional.
A pesquisa Genial/Quaest de julho ajuda a dimensionar o peso desse fator. Naquele levantamento, 32% dos eleitores pernambucanos se declaravam lulistas, e 47% diziam preferir que o próximo governador fosse um aliado de Lula. Outros 34% preferiam um nome independente, e 14%, um aliado de Jair Bolsonaro.
Na reta final da campanha, quando o horário eleitoral gratuito e a presença de lideranças nacionais ganham mais visibilidade, a associação entre o candidato estadual e o presidente passa a ser mais percebida pelo eleitor. Esse é um dos fatores que costumam favorecer, em Pernambuco, candidaturas alinhadas ao governo federal.
A aprovação do governo e o limite da conversão em voto
Ao longo da campanha, Raquel Lyra contou com índices de aprovação elevados. Na Genial/Quaest de julho, a aprovação ao governo estadual chegava a 68%, enquanto a intenção de voto da governadora era de 43%. A diferença de 25 pontos entre quem aprovava a gestão e quem declarava voto nela já indicava que parte do capital político do governo não estava consolidada em votos.
A análise do Portal O Vale Quer Saber sobre aquele levantamento apontava justamente esse ponto como um risco: se a avaliação positiva não se convertesse em voto até a reta final, a vantagem poderia ser reduzida. As pesquisas desta semana indicam que esse espaço foi disputado e, até aqui, ocupado em maior parte pelo adversário.
A disputa pelo Senado reforça o palanque
Outro elemento do cenário é a corrida ao Senado. Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT), que integram o campo político alinhado a Lula, vêm registrando bom desempenho nas pesquisas para as duas vagas em disputa. Na Genial/Quaest de julho, Marília aparecia na frente em todos os cenários testados, com Humberto Costa na segunda posição.
Um palanque competitivo para o Senado costuma reforçar a chapa ao governo, especialmente quando as candidaturas atuam de forma coordenada na campanha de rua, no horário eleitoral e nas redes sociais.
Rejeição e indecisos: onde a eleição ainda pode mudar
Com os dois principais candidatos tecnicamente empatados, a definição da eleição passa por dois grupos: os eleitores que ainda não escolheram candidato e os que rejeitam um dos nomes, mas não necessariamente aderiram ao outro.
No Ipespe, a soma de brancos, nulos, indecisos e eleitores que não responderam chega a 7,3%. No Instituto França, a fatia fora dos dois principais nomes é maior, o que indica mais espaço de movimentação até o dia da votação.
A rejeição também merece atenção. Com Raquel Lyra em 40% e João Campos em 39% no Ipespe, nenhum dos dois conta com uma vantagem clara nesse indicador. Na prática, isso significa que:
- O teto de crescimento dos dois é parecido, o que mantém a disputa aberta;
- A capacidade de reduzir a própria rejeição nos últimos dias pode ser decisiva;
- A mobilização do eleitor já decidido ganha importância, já que a abstenção pode alterar o resultado em uma eleição apertada.
Também é importante lembrar que pesquisas medem o momento em que foram feitas. O trabalho de campo do Ipespe e do Instituto França terminou em 25 de setembro. Fatos da campanha ocorridos depois dessa data, como debates, agendas e peças do horário eleitoral, não estão refletidos nos números.
Primeiro turno ou segundo turno?
Os dados atuais indicam que a eleição para o Governo de Pernambuco pode ser definida já no primeiro turno, uma vez que os demais candidatos somam percentuais baixos. Para vencer na primeira votação, porém, é necessário obter mais da metade dos votos válidos, que excluem brancos e nulos.
Com o cenário de empate técnico e a pequena fatia destinada aos outros candidatos, a disputa pelos votos válidos segue apertada. Uma diferença de poucos pontos entre os dois principais nomes pode ser suficiente para decidir a eleição no primeiro turno, mas também não é possível descartar a realização de segundo turno, caso a soma dos candidatos menores impeça que um dos líderes supere os 50% dos votos válidos.
Na simulação de segundo turno do Ipespe, a diferença entre os dois, de dois pontos, também está dentro da margem de erro, o que mantém o cenário indefinido em qualquer hipótese.
O que a virada significa para o Vale do São Francisco
Nenhuma das pesquisas divulgadas nesta semana apresentou recorte específico para o Sertão do São Francisco. Por isso, não é possível afirmar, com base nesses levantamentos, como está o voto em Petrolina e nos municípios vizinhos.
Ainda assim, a região tem peso próprio na disputa. Petrolina é um dos maiores colégios eleitorais do interior de Pernambuco, e o Vale do São Francisco concentra demandas que entraram diretamente no debate da campanha, como infraestrutura, segurança hídrica, fruticultura irrigada e a ligação com Juazeiro, na Bahia.
João Campos, por exemplo, assumiu durante a campanha o compromisso de construir uma nova ponte entre Petrolina e Juazeiro, reduzindo a dependência da Ponte Presidente Dutra, inaugurada em 1954. Raquel Lyra, por sua vez, tem apresentado entregas e investimentos da gestão estadual no interior como parte do discurso pela reeleição.
Em uma disputa em que os dois principais candidatos estão separados por menos de dois pontos percentuais, cada região do estado ganha relevância. O desempenho no interior, e em especial nos grandes polos como Petrolina, Caruaru e Garanhuns, tende a ser observado de perto pelas duas campanhas nos últimos dias antes da votação.
Como ler as próximas pesquisas
Com a proximidade da eleição, novos levantamentos devem ser divulgados nos próximos dias. Para acompanhar o cenário com mais segurança, o eleitor pode observar alguns pontos:
- Margem de erro: diferenças menores que a margem indicam empate técnico;
- Datas de campo: o período das entrevistas é mais importante do que a data de divulgação;
- Série histórica do mesmo instituto: comparar uma pesquisa com a anterior do mesmo instituto mostra a tendência com mais precisão do que comparar institutos diferentes;
- Registro no TSE: toda pesquisa divulgada deve ter número de registro na Justiça Eleitoral, que permite consultar metodologia, amostra e contratante.
O principal recado das pesquisas desta semana é que a eleição para o Governo de Pernambuco chega à reta final sem um favorito definido nos números, mas com uma mudança clara de posição entre os dois principais candidatos. Depois de meses com Raquel Lyra na liderança, João Campos passou a aparecer à frente em diferentes institutos, e a decisão ficará com o eleitor nas urnas.
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O Vale Quer Saber
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