A ONU Mulheres, em colaboração com TheNerve e outras entidades parceiras, divulgou um relatório alarmante que detalha a escalada da violência online direcionada a mulheres defensoras de direitos humanos, ativistas e, em particular, mulheres jornalistas e comunicadoras públicas. O estudo, intitulado "Ponto de Virada: Violência Online, Impactos, Manifestações e Reparação na Era da IA", revela um aumento preocupante de agressões digitais, incluindo o compartilhamento não consensual de imagens e o uso de deepfakes, destacando a urgência de medidas para combater essa realidade.

O documento "Ponto de Virada: Violência Online, Impactos, Manifestações e Reparação na Era da IA" aponta dados chocantes: 6% das entrevistadas foram vítimas de deepfakes, e quase uma em cada três reportou ter recebido investidas sexuais não solicitadas por meio de plataformas digitais.

A pesquisa também revela o impacto psicológico e profissional da agressão digital. Cerca de 41% das mulheres que participaram do estudo admitem praticar autocensura nas redes sociais para evitar abusos. No âmbito profissional, 19% delas relataram autocensura em seu trabalho devido à violência online.

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Especificamente entre as mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia, o cenário é ainda mais grave: 45% delas relataram autocensura nas redes sociais em 2025, um aumento de 50% em relação a 2020, e quase 22% aplicam a autocensura em seu próprio trabalho.

Os organizadores do estudo enfatizam que "esse tipo de abuso é frequentemente deliberado e coordenado, concebido para silenciar mulheres na vida pública, ao mesmo tempo em que mina sua credibilidade profissional e sua reputação pessoal". Notavelmente, observa-se uma tendência de aumento nas ações legais e denúncias às forças de segurança por parte de mulheres jornalistas e profissionais da mídia.

Em 2025, 22% das mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia estavam propensas a denunciar incidentes de violência online à polícia, um percentual que representa o dobro do registrado em 2020, quando o índice era de 11%.

A busca por justiça também cresceu: quase 14% dessas profissionais agora ingressam com ações legais contra perpetradores, facilitadores ou seus empregadores, um aumento significativo em comparação com os 8% de 2020. Esse dado reflete uma maior conscientização e uma demanda mais forte por responsabilização.

Impacto na saúde mental e bem-estar

O impacto da violência online na saúde e bem-estar das mulheres é alarmante. Entre as mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia entrevistadas, 24,7% foram diagnosticadas com ansiedade ou depressão diretamente relacionadas às agressões digitais sofridas. Além disso, quase 13% reportaram ter recebido diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Kalliopi Mingerou, chefe da Seção de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da ONU Mulheres, alertou que a inteligência artificial (IA) está facilitando e intensificando a gravidade dos abusos digitais.

Mingerou enfatizou que "isso está alimentando a erosão de direitos duramente conquistados em um contexto marcado pelo retrocesso democrático e pela misoginia em rede". Ela salientou a responsabilidade coletiva de "garantir que sistemas, leis e plataformas respondam com a urgência que essa crise exige".

Lacunas na proteção legal global

A ONU Mulheres também chama a atenção para as significativas falhas na proteção legal contra a violência online. Conforme dados do Banco Mundial divulgados no ano passado, menos de 40% dos países possuem leis específicas para proteger mulheres contra assédio ou perseguição virtual.

Globalmente, cerca de 1,8 bilhão de mulheres e meninas, o equivalente a 44% da população feminina, permanecem sem acesso a uma proteção legal adequada contra essas formas de agressão digital.

FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber