O candidato ao governo de Pernambuco João Campos (PSB) assumiu o compromisso de construir uma nova ponte ligando Petrolina, no Sertão pernambucano, a Juazeiro, no norte da Bahia. O anúncio foi feito em vídeo gravado no Recife, diante de uma das pontes entregues durante a gestão dele como prefeito da capital pernambucana, cargo que deixou em abril deste ano para concorrer ao Palácio do Campo das Princesas.

"Como prefeito, fiz quatro pontes, incluindo essa daqui, e comecei a obra da quinta. E agora chegou a hora de Pernambuco ganhar novas pontes. Vamos fazer uma nova ponte ligando Petrolina a Juazeiro", afirmou o candidato no vídeo.

A promessa recoloca em pauta uma reivindicação antiga da população de Petrolina e Juazeiro: hoje, a única travessia rodoviária entre as duas cidades é feita pela Ponte Presidente Dutra, inaugurada em 1954 e usada, segundo o próprio candidato, por cerca de 40 mil veículos por dia — volume de tráfego que se acumula em uma única estrutura disponível para conectar os dois lados do Rio São Francisco.

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A dependência da Ponte Presidente Dutra, com 72 anos de uso

A Ponte Presidente Dutra é a única ligação rodoviária direta entre Petrolina e Juazeiro desde que foi entregue, há 72 anos. Com 801 metros de extensão sobre o Rio São Francisco, a obra teve a concorrência para execução realizada em maio de 1949 e foi projetada pelo engenheiro francês Eugène Freyssinet, com cálculos estruturais desenvolvidos na França. A construção ficou a cargo de um consórcio formado pela empresa belga Estacas Franki e pela francesa Entreprises Campenon Bernard, e a ponte é reconhecida como a segunda obra em concreto protendido erguida no Brasil.

Mais do que um marco de engenharia, a travessia se tornou, ao longo das décadas, um símbolo do Vale do São Francisco. Petrolina e Juazeiro formam, juntas, o maior aglomerado urbano do semiárido brasileiro, reconhecido também como um dos principais polos de fruticultura irrigada do país, com forte movimentação de cargas voltadas à exportação de frutas como manga e uva. Esse perfil econômico intensifica a circulação diária de trabalhadores, estudantes, produtores rurais e veículos de carga entre os dois municípios — movimento que depende, até hoje, de uma única estrutura projetada, mais de sete décadas atrás, para um volume de tráfego muito inferior ao atual.

Como toda a circulação rodoviária entre as duas cidades passa hoje por essa única travessia, qualquer interdição parcial da Ponte Presidente Dutra — seja para manutenção estrutural, seja em situações emergenciais — afeta diretamente o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas que atravessam o Rio São Francisco todos os dias, sem que exista hoje uma rota alternativa rodoviária direta entre os dois centros urbanos.

Diante desse cenário de tráfego intenso concentrado em uma única estrutura, a Prefeitura de Petrolina mantém videomonitoramento em tempo real da ponte, recurso que auxilia condutores e órgãos de trânsito a acompanhar as condições de fluxo sobre o Rio São Francisco. A medida, no entanto, atua sobre a gestão do trânsito existente, sem alterar a limitação estrutural de fundo: a ausência de uma segunda travessia rodoviária entre Petrolina e Juazeiro.

Uma reivindicação com mais de uma promessa não cumprida

A cobrança por uma segunda travessia, ou ao menos pela ampliação da estrutura existente, não é recente. Já no fim de 2021, o então ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, havia anunciado que a duplicação do trecho da Ponte Presidente Dutra do lado de Juazeiro começaria "no primeiro trimestre de 2022". O prazo, no entanto, não foi cumprido: até meados de fevereiro daquele ano, a obra seguia sem processo licitatório aberto e sem início de execução, o que gerou cobranças públicas de moradores e lideranças locais na época.

Passados mais de quatro anos daquele anúncio, o pacote de obras de mobilidade entre as duas cidades voltou a ganhar impulso a partir de janeiro de 2025, quando prefeituras e Governo Federal formalizaram um novo entendimento sobre o tema — o que é detalhado a seguir. É nesse contexto de promessas anteriores não concluídas que a fala de João Campos, feita já em campanha ao governo do estado, ganha repercussão entre moradores da região.

R$ 300 milhões e uma parceria entre quatro entes

Segundo João Campos, a nova travessia teria um custo estimado em R$ 300 milhões, valor que, de acordo com o candidato, dependeria da soma de esforços entre diferentes níveis de governo para sair do papel.

"Um sonho de muitos anos, com 300 milhões e muita parceria: a gente vai juntar prefeitura, governo do estado, governo da Bahia, governo federal, e vamos tirar do papel esse sonho, pode ter certeza", disse o candidato.

Ao citar prefeitura, governo de Pernambuco, governo da Bahia e governo federal como parceiros necessários para viabilizar a obra, Campos reconhece, na própria fala, a complexidade de um projeto que atravessa fronteira estadual e que, por isso, depende de articulação entre gestões de partidos e níveis federativos distintos — um desafio recorrente em obras de infraestrutura que ligam municípios de estados diferentes, já que cada ente precisa aprovar sua própria contrapartida orçamentária e alinhar prioridades técnicas com os demais.

João Campos, que é engenheiro civil de formação, também comentou a coincidência entre a profissão e o tipo de compromisso assumido. "Dizem que política é a arte de construir ponte. Agora, imagina juntar política com engenheiro? Aí é ponte de verdade", brincou o candidato, completando: "Petrolina, se prepara que a gente vai conquistar isso junto."

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Um pacote de obras que já tramita entre as prefeituras e o Governo Federal

A promessa de campanha se soma a um movimento que já está em curso entre as gestões municipais das duas cidades e o Governo Federal. Em janeiro de 2025, os prefeitos Simão Durando, de Petrolina, e Andrei Gonçalves, de Juazeiro, firmaram acordo relacionado à mobilidade urbana entre os dois municípios e entregaram o projeto ao então ministro das Cidades, Renan Filho, em Brasília. Dias depois, em 29 de janeiro de 2025, o Ministério dos Transportes e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) visitaram as cidades e classificaram as travessias de Petrolina e Juazeiro como obras prioritárias dentro do Novo PAC.

De acordo com o que foi apresentado pelas prefeituras na ocasião, o investimento total do pacote soma R$ 316 milhões, dividido entre R$ 131 milhões de contrapartida vinculada a Petrolina e R$ 185 milhões vinculados a Juazeiro. Já segundo o detalhamento técnico divulgado pelo Ministério dos Transportes, esses valores estão associados sobretudo à duplicação de trechos rodoviários — 11,3 quilômetros da BR-407/PE em Petrolina, com conclusão então prevista para dezembro de 2025, e 5,3 quilômetros da BR-407/BA somados a 4 quilômetros da BR-235/BA em Juazeiro, com cronograma até julho de 2026 —, além da construção de viadutos e rotatórias nos dois municípios. A estimativa oficial é que as intervenções beneficiem cerca de 650 mil moradores e absorvam parte das mais de 50 mil movimentações diárias de veículos registradas hoje na região.

Não fica claro, a partir da fala do candidato, se a obra à qual ele se refere é a mesma que já tramita entre as prefeituras e o Governo Federal desde o início de 2025, ou se se trata de uma proposta distinta, a ser negociada separadamente em uma eventual gestão estadual do PSB à frente de Pernambuco. De todo modo, as duas frentes convergem no mesmo diagnóstico: a necessidade de reduzir a dependência de uma única travessia rodoviária entre as duas cidades, hoje concentrada inteiramente na Ponte Presidente Dutra.

Quem é João Campos, o candidato que promete a obra

João Campos tem 32 anos e é engenheiro civil de formação. Filho do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto em 2014, e bisneto do também ex-governador Miguel Arraes, ele construiu trajetória própria na política pernambucana antes de chegar à disputa pelo governo do estado.

Eleito deputado federal em 2018, com mais de 460 mil votos — recorde de votação em Pernambuco na ocasião —, Campos deixou o cargo em 2020 para concorrer à Prefeitura do Recife, eleição que venceu aos 27 anos, tornando-se o prefeito mais jovem da história da capital pernambucana. Durante a gestão municipal, esteve à frente da entrega de obras de infraestrutura na capital, entre elas travessias sobre rios e canais da cidade, tema que ele próprio retomou no vídeo em que anunciou o compromisso com a nova ponte entre Petrolina e Juazeiro. Reeleito em 2024 com cerca de 80% dos votos válidos, ele renunciou à prefeitura em abril de 2026 para se candidatar ao governo do estado, movimento que transferiu o comando da cidade ao vice-prefeito Victor Marques (PCdoB).

Na disputa estadual, Campos concorre pelo PSB tendo como vice o advogado e economista Carlos Costa, do Republicanos, e se apresenta como principal opositor à governadora Raquel Lyra (PSD), que disputa a reeleição. Em sua declaração de bens à Justiça Eleitoral, o candidato registrou patrimônio de R$ 2,9 milhões, concentrado majoritariamente em aplicações financeiras e investimentos.

O tabuleiro eleitoral em Pernambuco

João Campos disputa o governo de Pernambuco contra outros seis candidatos, entre eles a atual governadora, Raquel Lyra. Formada em Direito pela UFPE, Raquel foi delegada da Polícia Federal, procuradora do Estado, deputada estadual pelo PSB a partir de 2010, prefeita de Caruaru por dois mandatos, entre 2016 e 2022, e se tornou, em 2022, a primeira mulher eleita governadora de Pernambuco. Hoje filiada ao PSD, ela concorre à reeleição com Priscila Krause como vice, pela coligação "Pernambuco de Coração".

A promessa da nova ponte entre Petrolina e Juazeiro se insere em uma agenda de campanha que tem levado João Campos a diferentes regiões do estado, com compromissos assumidos publicamente perante categorias e municípios específicos. Dias antes do anúncio sobre a travessia, no início de setembro, o candidato já havia participado de sabatina promovida pelo Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (SINPOL-PE), em Recife, ocasião em que assinou carta de compromisso com a chamada pauta dos "33%", relacionada à jornada de trabalho da categoria. Raquel Lyra, também convidada ao evento, não compareceu.

Vale do São Francisco adentro, a disputa pelo governo de Pernambuco tem na infraestrutura de conexão entre Petrolina e Juazeiro um dos temas de maior apelo local, dado o peso econômico e populacional da região para o estado. A fruticultura irrigada, a movimentação comercial diária entre as duas cidades e a posição de Petrolina como polo regional do Sertão reforçam a sensibilidade do eleitorado local a promessas relacionadas à travessia do Rio São Francisco — tema que, como mostram tanto o anúncio de 2021 quanto os projetos protocolados junto ao Governo Federal em 2025, não é novo na pauta pública da região, mas que ainda não teve uma nova travessia efetivamente entregue à população.

Até a publicação desta matéria, a assessoria de campanha de João Campos não havia detalhado cronograma, projeto executivo ou fase de negociação da obra prometida junto aos demais entes federativos citados por ele. As eleições estaduais e presidenciais de 2026 têm primeiro turno marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro, caso nenhum candidato ao governo de Pernambuco alcance maioria absoluta dos votos válidos.

O que fica em aberto até a eleição

Com o primeiro turno cada vez mais próximo, promessas de infraestrutura como a anunciada por João Campos tendem a se multiplicar na reta final de campanha, especialmente em regiões como o Vale do São Francisco, onde a travessia entre Petrolina e Juazeiro é, ao mesmo tempo, uma necessidade cotidiana da população e um símbolo político disputado por diferentes gestões ao longo dos últimos anos. Até aqui, o histórico da reivindicação mostra mais anúncios do que entregas: da promessa de duplicação feita em 2021, ainda sob outro governo federal, ao pacote de obras protocolado pelas prefeituras de Petrolina e Juazeiro em 2025, a nova travessia sobre o Rio São Francisco segue, por ora, como um projeto em construção apenas no papel.

Caberá aos próximos meses de campanha, e eventualmente à gestão que assumir o governo de Pernambuco a partir de 2027, mostrar se a promessa feita por João Campos avança para um projeto técnico detalhado, com prazos e fontes de recursos definidas junto à Bahia e ao Governo Federal, ou se permanece no campo das intenções, como parte de reivindicações já conhecidas pela população de Petrolina e Juazeiro.

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FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber