Com a chegada do inverno, é comum observar um aumento nos casos de gripes, resfriados, crises alérgicas e outras infecções respiratórias. Esse cenário sazonal, que se repete todos os anos, também traz consigo um hábito preocupante: o de recorrer à automedicação para aliviar sintomas como febre, dor no corpo, tosse, coriza e nariz entupido, sem passar por avaliação médica.

A prática, embora pareça uma solução rápida e prática diante do desconforto, pode trazer riscos importantes à saúde. É o que alerta a Dra. Sílvia Nunes Szente Fonseca, médica infectologista e professora do IDOMED (Instituto de Educação Médica), que orienta sobre os perigos do uso incorreto de medicamentos durante quadros respiratórios comuns nesta época do ano.

Sintomas parecidos, tratamentos diferentes

Segundo a especialista, um dos principais riscos da automedicação está na dificuldade de diferenciar quadros clínicos que, no início, podem parecer muito semelhantes entre si.

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"Gripe, resfriado, rinite, sinusite e outras infecções respiratórias podem começar de forma parecida, mas nem sempre exigem o mesmo cuidado. Quando a pessoa se automedica, corre o risco de usar um medicamento inadequado para aquele quadro", explica a Dra. Sílvia.

Essa confusão inicial entre diferentes doenças respiratórias é justamente o que torna a automedicação arriscada: sem o diagnóstico correto, o paciente pode escolher um remédio que não trata a causa real do problema, além de mascarar sintomas que ajudariam o médico a identificar a origem do quadro.

Os riscos dos antigripais de venda livre

Entre os produtos mais utilizados durante o inverno estão os antigripais, medicamentos que costumam reunir diferentes substâncias em uma única fórmula — geralmente combinando analgésicos, antitérmicos, anti-histamínicos e descongestionantes.

Essa combinação de componentes, de acordo com a infectologista, pode representar um risco especial para determinados grupos de pacientes. Alguns desses ingredientes podem:

  • Interferir na pressão arterial;
  • Causar sonolência;
  • Provocar palpitações;
  • Interagir com medicamentos de uso contínuo.

A atenção deve ser redobrada por pessoas que já convivem com hipertensão, arritmias, doenças cardíacas ou glaucoma, já que essas condições podem se agravar com o uso indiscriminado de fórmulas antigripais sem orientação profissional.

Antibiótico não trata gripe nem resfriado

Um dos equívocos mais frequentes durante o inverno é o uso de antibióticos para tratar sintomas de gripes e resfriados, quadros que, na grande maioria dos casos, têm origem viral.

A Dra. Sílvia é direta ao esclarecer esse ponto: "Antibiótico não trata virose. O uso sem necessidade não acelera a recuperação e ainda pode favorecer resistência bacteriana e efeitos colaterais."

A resistência bacteriana é considerada, atualmente, um dos maiores desafios da saúde pública em todo o mundo. Quando antibióticos são usados sem necessidade real, as bactérias podem desenvolver mecanismos de defesa contra essas substâncias, tornando infecções futuras mais difíceis de tratar — inclusive para a própria pessoa que fez uso incorreto do medicamento.

Por isso, o uso de antibióticos deve ser sempre indicado por um médico, após avaliação clínica que confirme a presença de infecção bacteriana.

Descongestionantes e corticoides: alívio imediato, risco a médio prazo

Os descongestionantes nasais também estão entre os medicamentos mais buscados por quem sofre com nariz entupido durante o inverno. Eles trazem alívio rápido, mas seu uso contínuo por vários dias seguidos pode causar o chamado efeito rebote, quadro em que a obstrução nasal retorna com intensidade ainda maior do que antes do uso do produto.

Já os corticoides, apesar de terem papel importante em situações clínicas específicas, também não devem ser utilizados por conta própria. Segundo a infectologista, esses medicamentos podem mascarar infecções em curso e representar riscos adicionais para pessoas com determinadas condições de saúde.

"Corticoide não é medicamento para ser tomado por conta própria. Ele pode mascarar infecções e trazer riscos para pessoas com diabetes, hipertensão ou outras condições de saúde", orienta a médica.

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Atenção redobrada com bebês e crianças

A preocupação com a automedicação se torna ainda maior quando o assunto envolve bebês e crianças. Doses inadequadas, intervalos incorretos entre uma administração e outra, ou o uso de substâncias não indicadas para a faixa etária podem trazer consequências sérias à saúde infantil.

Entre os riscos apontados estão efeitos colaterais importantes e, em casos mais graves, quadros de intoxicação. Por isso, pais e responsáveis devem evitar administrar qualquer medicamento a crianças sem orientação médica prévia, mesmo diante de sintomas aparentemente simples de gripe ou resfriado.

Quando procurar atendimento médico

A infectologista do IDOMED lista situações que exigem busca imediata por atendimento médico, entre elas:

  • Febre persistente;
  • Falta de ar;
  • Dor no peito;
  • Piora progressiva dos sintomas;
  • Cansaço intenso.

A atenção deve ser redobrada também para os chamados grupos de risco, que incluem:

  • Idosos;
  • Crianças pequenas;
  • Gestantes;
  • Pessoas imunossuprimidas;
  • Pacientes com doenças crônicas.

Para esses grupos, qualquer sintoma respiratório que persista ou se intensifique deve ser avaliado por um profissional de saúde o quanto antes, já que o risco de complicações costuma ser maior.

Cuidados válidos para toda a população do Vale

Embora o alerta da Dra. Sílvia tenha caráter nacional, a orientação é especialmente relevante para moradores de regiões como o Vale do São Francisco, onde a variação de temperatura entre o dia e a noite durante o inverno favorece o surgimento de quadros respiratórios. A recomendação da especialista serve como guia prático para famílias que buscam evitar complicações desnecessárias durante essa época do ano.

"Medicamento não é uma solução universal. O que funciona para uma pessoa pode não ser adequado para outra. No inverno, o ideal é evitar a automedicação e buscar orientação quando os sintomas persistem ou se intensificam", conclui a médica.

A mensagem central da orientação médica é clara: sintomas respiratórios no inverno merecem atenção, mas a solução não está em recorrer a remédios por conta própria. Buscar avaliação profissional continua sendo o caminho mais seguro para identificar corretamente a causa do problema e definir o tratamento adequado, evitando riscos desnecessários à saúde.

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FONTE/CRÉDITOS: Redação O Vale Quer Saber