Há algo de curioso — para não dizer conveniente — na forma como a palavra “democracia” tem sido usada no Brasil. Invocada em discursos solenes, defendida em notas oficiais e celebrada em eventos institucionais, ela também parece servir, nos bastidores, como moeda de troca em ambientes bem menos republicanos.

No epicentro mais recente dessa contradição está Daniel Vorcaro, figura que, segundo investigações envolvendo o Banco Master, teria dominado com habilidade um jogo antigo: o da influência transversal. Sem compromisso ideológico, sem fidelidade partidária, mas com uma precisão quase cirúrgica para circular entre diferentes esferas de poder — da esquerda à direita, do centro às cortes mais altas.

Vorcaro não inventou esse método. Apenas o executou com eficiência. Em vez de discursos, encontros. Em vez de alinhamentos públicos, conexões privadas. E, ao que tudo indica, em vez de convencimento político, algo bem mais direto: relações cultivadas em ambientes onde a formalidade institucional dá lugar à informalidade conveniente. Afinal, a história já mostrou — de Judas Iscariotes aos escândalos contemporâneos — que sempre há quem confunda confiança com oportunidade.

O ponto mais desconfortável dessa história não é a existência de um operador com trânsito amplo. É o volume de portas abertas que ele encontrou. Ministros, ex-ministros, figuras próximas ao poder e até integrantes de altas instâncias institucionais aparecem, direta ou indiretamente, orbitando o mesmo circuito social. Coincidência? Talvez. Mas é uma coincidência que começa a pesar.

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As investigações da Polícia Federal e o material que vem sendo divulgado pela imprensa indicam que o enredo pode ter raízes na Bahia, com conexões que se expandiram em múltiplas direções. Um crescimento que não se deu por acaso, mas por capilaridade — aquela velha capacidade de infiltrar-se onde há espaço… ou onde se cria espaço.

E aqui surge a pergunta inevitável: quem, de fato, está disposto a defender a democracia quando ela deixa de ser discurso e passa a exigir coerência?

Porque, no fim das contas, Vorcaro não operava por ideologia. Operava por sobrevivência e expansão. Jogava o jogo como ele é — ou como permitiram que fosse. E isso talvez diga menos sobre ele e mais sobre o ambiente que o acolheu com tanta naturalidade.

Agora, com uma delação no horizonte, o roteiro muda de tom. O que antes era silêncio elegante pode se transformar em explicações constrangedoras. E, como costuma acontecer nesses casos, a conta raramente é dividida de forma equilibrada. Alguns pagarão mais do que outros — não necessariamente por terem participado mais, mas por estarem mais expostos.

A democracia brasileira, mais uma vez, será testada. Não em discursos, mas na disposição real de investigar, responsabilizar e — principalmente — não escolher alvos por conveniência política. Se dizem que metade da Republica pode cair, que caia então a banda podre!

Porque quando a democracia vira seletiva, ela deixa de ser democracia. E passa a ser apenas um argumento bem posicionado.

FONTE/CRÉDITOS: Cristiano Maia